A relação entre Brasil e Estados Unidos passou, em menos de um ano, de declarações de “química excelente” para um dos momentos mais tensos da história recente entre os dois países. Segundo o Palácio do Planalto, Lula defendeu a retomada das negociações sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos, enquanto Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais e propôs que equipes dos dois países voltem a se reunir o mais brevemente possível.
Do aperto de mão ao tarifaço
O primeiro encontro entre Lula e Trump ocorreu em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York. Na ocasião, Trump afirmou que os dois haviam demonstrado uma “química excelente”, sinalizando que, apesar das diferenças ideológicas, haveria espaço para uma relação pragmática. A aproximação ganhou força em maio deste ano, quando Lula foi recebido na Casa Branca para uma reunião de três horas que incluiu almoço com ministros dos dois governos.
Mas a lua de mel durou pouco. Em junho, Trump recebeu o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, na Casa Branca — um gesto interpretado pelo Planalto como interferência na campanha eleitoral brasileira. Logo depois, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais relacionadas ao Pix, etanol e combate ao desmatamento. O Brasil rejeitou as acusações, mas a cobrança entrou em vigor em julho, atingindo US$ 5,8 bilhões em exportações brasileiras — cerca de 15% do total enviado aos EUA em 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento.
Comparação internacional
A título de comparação, a China — alvo histórico de tarifas americanas — enfrentou taxas de até 60% sobre diversos produtos durante a gestão Trump. O Brasil, embora em patamar inferior, viu-se pela primeira vez tratado como adversário comercial pelos Estados Unidos, uma mudança significativa em relação à tradicional parceria entre os dois países. Setores como madeira, móveis, máquinas, calçados e açúcar foram os mais afetados pela medida.
Além das tarifas, a tensão escalou no campo diplomático. O governo americano revogou o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, em retaliação à demora do Brasil em conceder o agrément (aprovação diplomática) para Daniel Perez, indicado para a embaixada americana em Brasília. Lula reagiu publicamente, acusando Trump de agir como “imperador” e de cometer uma “coisa desaforada” ao impor tarifas enquanto negociações ainda estavam em curso. O presidente brasileiro também ironizou as críticas ao sistema eleitoral brasileiro, dizendo que levaria uma urna eletrônica para explicar a Trump como funcionam as eleições no país.
O que muda agora
O telefonema desta sexta-feira não resultou no anúncio de redução ou retirada das tarifas, mas restabeleceu o canal direto de diálogo entre os dois presidentes. A conversa ocorre uma semana depois de o Brasil notificar oficialmente os Estados Unidos sobre o início do processo de aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica — um mecanismo que permite ao país adotar contramedidas diante de decisões unilaterais que prejudiquem empresas brasileiras. Funciona como uma espécie de “olho por olho” comercial: se os EUA taxam produtos brasileiros, o Brasil pode fazer o mesmo com produtos americanos.
Apesar da iniciativa, o governo brasileiro mantém o discurso de que prefere uma solução negociada. A proposta de Trump de retomar rapidamente as reuniões entre representantes dos dois governos é vista como um sinal positivo, mas ainda não há garantias de que as tarifas serão revertidas. Para empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos, a incerteza continua — e o custo adicional de 25% segue pesando sobre a competitividade dos produtos nacionais no mercado americano.
📊 Número do Dia
US$ 5,8 bilhões , Volume de exportações brasileiras atingido pelas tarifas americanas de 25%, equivalente a 15% do total enviado aos EUA em 2025
Por que isso importa
Para empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos, as tarifas de 25% representam um aumento significativo de custos e perda de competitividade. Para o cidadão, a tensão comercial pode resultar em menos empregos nos setores afetados (madeira, móveis, calçados, açúcar) e eventual encarecimento de produtos importados dos EUA caso o Brasil aplique contramedidas. Para investidores, a incerteza sobre a relação bilateral aumenta o risco de negócios que dependem do comércio entre os dois países. A reabertura do diálogo é positiva, mas ainda não garante solução — e o tempo conta contra empresas que já sentem o impacto das tarifas há mais de um mês.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/08/21/de-quimica-excelente-a-tarifaco-as-idas-e-vindas-da-relacao-entre-lula-e-trump.ghtml


