O primeiro-ministro canadense Mark Carney decidiu responder na mesma moeda ao tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump. As tarifas de importação de 50% impostas pelos Estados Unidos entraram em vigor neste sábado sobre centenas de produtos canadenses — como compensado de madeira, bebidas alcoólicas, equipamentos elétricos e artigos de hóquei. Segundo O Globo, o Canadá abandonou as negociações após um impasse travar a definição de um acordo.
As tarifas retaliatórias canadenses se concentrarão em setores estratégicos: aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, celulose e papel, e produtos eletrônicos. Carney afirmou que a medida foi tomada “com relutância” porque reconhece que ela aumentará os custos e reduzirá as opções para os canadenses. É como se o governo decidisse encarecer produtos que os próprios cidadãos compram para pressionar o vizinho — uma estratégia arriscada, mas que conta com amplo apoio popular.
Uma disputa entre gigantes comerciais
Os dois países trocaram quase US$ 900 bilhões em bens e serviços no ano passado, tornando esta uma das maiores relações comerciais do mundo. Para colocar em perspectiva, o comércio bilateral entre Canadá e Estados Unidos supera o PIB de países como a Suíça ou a Turquia. Os Estados Unidos são, de longe, o maior mercado para as exportações canadenses — petróleo, veículos e autopeças lideram a lista. Mas o Canadá também é o maior comprador de bens e serviços dos EUA, à exceção da União Europeia, segundo dados do Departamento de Comércio americano.
Doug Ford, premier de Ontário (a província mais industrializada do Canadá), recomendou a Carney uma retaliação “dólar por dólar”. Em carta ao primeiro-ministro, Ford sugeriu que produtos de estados “politicamente importantes” para Trump — como Flórida, Texas, Iowa e Wisconsin — sentissem “todo o peso da resposta do Canadá”. A estratégia é clara: atingir bases eleitorais do presidente americano para forçar uma mudança de postura.
Apoio popular e político
Carney conta com amplo apoio da opinião pública canadense. Uma pesquisa da Leger Marketing publicada esta semana mostrou que 56% dos canadenses queriam que o governo “adotasse uma postura firme e não fizesse mais concessões”. Até adversários políticos de Carney, como o ex-premier de Alberta Jason Kenney, elogiaram a decisão de abandonar as negociações. Kenney afirmou que “o Canadá claramente fez um esforço sério e de boa-fé para obter maior estabilidade e acesso ao mercado”.
A mesma pesquisa mostrou apoio a medidas como a imposição de tarifas sobre as exportações de energia compradas pelos EUA do Canadá e de tributos especiais sobre serviços americanos, como a Netflix. Segundo O Globo, muitos canadenses já estão retaliando à sua própria maneira: as viagens de canadenses aos EUA caíram acentuadamente desde que Trump voltou à Casa Branca, prejudicando estados fronteiriços e destinos turísticos como Las Vegas.
Comparação internacional
A disputa entre Canadá e Estados Unidos lembra a guerra comercial entre EUA e China iniciada em 2018, quando Pequim também respondeu com tarifas espelho sobre produtos americanos. Naquele caso, a escalada prejudicou ambas as economias e elevou preços para consumidores dos dois lados. A diferença é que Canadá e EUA mantêm um tratado de livre comércio na América do Norte (junto com o México), o que torna a situação ainda mais inusitada — é como se dois sócios de longa data de repente começassem a cobrar pedágio um do outro.
📊 Número do Dia
US$ 900 bilhões , Volume de bens e serviços trocados entre Canadá e Estados Unidos no ano passado, uma das maiores relações comerciais do mundo
Por que isso importa
Para o Brasil, a escalada tarifária entre Canadá e Estados Unidos abre oportunidades e riscos. De um lado, o país pode ganhar espaço em mercados onde canadenses e americanos perdem competitividade — Trump já ampliou a cota para importação de carne moída sem tarifa, beneficiando o Brasil. De outro, a fragmentação do comércio global pode reduzir o crescimento mundial e afetar a demanda por commodities brasileiras. Para empresas brasileiras que exportam para a América do Norte, é momento de reavaliar cadeias de suprimento e explorar nichos deixados pela disputa entre os vizinhos.


