Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates — a maior gestora de fundos de hedge (fundos que usam estratégias sofisticadas para buscar lucro) do mundo —, publicou nesta sexta-feira um alerta sobre o risco de uma crise da dívida nos Estados Unidos. Segundo ele, o problema pode se materializar em até três anos, com margem de dois anos para mais ou para menos. Em uma publicação no LinkedIn, Dalio recomendou que investidores destinem entre 10% e 15% de suas carteiras ao ouro e “um pouco” de Bitcoin, reduzindo a exposição aos títulos do Tesouro americano (os Treasuries, que funcionam como uma espécie de empréstimo que investidores fazem ao governo dos EUA).
O alerta vem em um momento delicado para as finanças americanas. Segundo Dalio, o governo dos EUA deve arrecadar cerca de US$ 5,5 trilhões em 2026, mas gastar US$ 7,5 trilhões — uma diferença de US$ 2 trilhões que precisará ser coberta com mais endividamento. Para piorar, apenas os juros dessa dívida devem custar US$ 1 trilhão, e cerca de US$ 10 trilhões em dívidas antigas precisarão ser refinanciados (trocados por novos empréstimos). É como se uma família ganhasse R$ 5.500 por mês, gastasse R$ 7.500 e ainda tivesse que pagar R$ 1.000 só de juros do cartão de crédito — enquanto precisa renegociar R$ 10.000 em dívidas antigas.
Os rendimentos dos Treasuries de longo prazo atingiram os maiores níveis em vários anos, sinalizando que os investidores estão exigindo juros mais altos para emprestar dinheiro ao governo americano. O Japão, maior credor estrangeiro dos EUA, já começou a vender títulos americanos para defender sua própria moeda, o iene. Para tentar conter a queda dos papéis, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou esta semana que vai ampliar as recompras de dívida de longo prazo — uma tentativa de reduzir a oferta de títulos no mercado e segurar os preços. Até agora, a medida trouxe apenas alívio temporário, segundo reportagem do jornal O Globo.
O modelo de Dalio e a comparação internacional
Dalio explica que os acontecimentos recentes seguem o padrão descrito em seu livro “How Countries Go Broke: The Big Cycle” (“Como os países quebram: o grande ciclo”). Segundo o modelo, quando os custos do serviço da dívida (os juros que o governo paga) crescem demais e os investidores não querem mais comprar títulos, os governos são forçados a aceitar juros ainda mais altos ou os bancos centrais precisam imprimir dinheiro para comprar esses papéis. Ambas as saídas têm consequências: juros altos travam a economia, e impressão de dinheiro enfraquece a moeda e alimenta a inflação (alta generalizada de preços).
O investidor afirma que países como Reino Unido, China e Japão enfrentam pressões fiscais semelhantes. A título de comparação, o Brasil também lida com desafios fiscais, mas em escala diferente: o déficit primário brasileiro (quando o governo gasta mais do que arrecada, sem contar juros) ficou em torno de 2,3% do PIB em 2025, segundo dados públicos do Tesouro Nacional, enquanto o déficit americano está em cerca de 6% do PIB. A diferença é que os EUA ainda são vistos como a economia mais segura do mundo — mas Dalio argumenta que essa percepção pode mudar.
Dalio defende que o déficit orçamentário americano precisa cair dos atuais 6% para 3% do PIB, por meio de uma combinação de cortes de gastos, aumento de impostos e redução dos juros. Sem essa mudança de rumo, a crise é questão de tempo, segundo ele. “É por isso que espero que moedas não emitidas por governos, como ouro e Bitcoin, tenham um desempenho relativamente bom”, escreveu o bilionário. Nesta sexta-feira, o ouro avançou ao maior nível desde maio, enquanto o Bitcoin superou os US$ 77 mil, a caminho de registrar sua maior alta semanal desde 2023.
📊 Número do Dia
US$ 2 trilhões , Diferença entre o que o governo americano deve arrecadar (US$ 5,5 trilhões) e gastar (US$ 7,5 trilhões) em 2026, segundo estimativa de Ray Dalio
Por que isso importa
Para o investidor brasileiro, o alerta de Dalio é relevante porque uma crise da dívida americana afetaria todo o sistema financeiro global — os Treasuries são considerados o ativo mais seguro do mundo e servem de referência para precificar riscos em todos os mercados, incluindo o brasileiro. Se os juros americanos subirem ainda mais, o Brasil tende a sofrer com saída de capital (investidores tirando dinheiro de países emergentes para buscar segurança) e pressão sobre o real. Para o cidadão, isso pode significar inflação mais alta e juros domésticos elevados por mais tempo, encarecendo financiamentos e reduzindo o poder de compra.


