Foi uma boa semana para os mercados brasileiros, e quase nada do que a explica aconteceu no Brasil.
A Leitura da Semana
O dólar comercial encerrou a sexta-feira a R$ 5,142, queda de 1% no dia e recuo acumulado de 1,53% na semana, no menor nível desde 10 de agosto. O Ibovespa, no mesmo compasso, chegou a 171.215,60 pontos, alta de 1,96% frente à abertura do pregão. Movimentos dessa magnitude em poucas horas não são rotina; são sinal de que alguma percepção mudou. E a percepção mudou lá fora.
O contexto internacional ajuda a entender por quê. O Tesouro americano iniciou um programa de recompra de títulos públicos, operação que injeta dólares no sistema financeiro e que parte do mercado apelidou de “not-QE”. Mais dólares circulando tendem a enfraquecer a moeda americana e a empurrar capital para ativos de maior risco, categoria em que economias emergentes costumam ser enquadradas. O Bitcoin subiu na esteira do mesmo movimento, o que diz menos sobre cripto e mais sobre liquidez.
Na mesma semana, porém, Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, publicou um alerta sobre o risco de uma crise da dívida nos Estados Unidos. A coincidência é elegante: o mercado celebra a liquidez que vem de um Tesouro que emite e recompra dívida, enquanto um dos maiores gestores do mundo aponta justamente para o tamanho dessa dívida como problema. Otimismo e advertência dividindo o mesmo calendário.
Perspectiva & Olhar da Redação
Para o Brasil, o dólar mais barato tem efeitos concretos e imediatos. Produtos importados ficam mais acessíveis, insumos industriais custam menos, combustíveis ganham espaço para pressionar menos, e a inflação encontra um vento a favor. Câmbio não é apenas cotação de telão: é um componente silencioso do preço da prateleira.
O problema é a origem do alívio. Quando a melhora vem de liquidez externa e não de fundamentos internos, ela chega rápido e pode partir com a mesma velocidade. No plano doméstico, os sinais são mais ambíguos: os Correios abriram um novo Plano de Demissão Voluntária mirando 7 mil trabalhadores, a Enel apresentou alegações finais contra a caducidade da concessão em São Paulo, e o Senado encaminhou à CCJ a PEC que discute o fim da escala 6×1. São temas de custo, produtividade e regulação, ou seja, exatamente o tipo de agenda que determina se o alívio cambial vira crescimento ou apenas alívio.
Há também o ruído externo mais direto. A relação entre Brasil e Estados Unidos passou, em menos de um ano, de cordialidade declarada a um dos momentos mais tensos da história recente, com o tema tarifário ainda em aberto. Canadá já respondeu a tarifas americanas de 50% com medidas próprias, o que mostra que o tabuleiro comercial segue instável. O real agradece a liquidez global; o exportador brasileiro observa a política comercial com menos entusiasmo.
A semana entrega, portanto, um cenário de dois andares: mercados aliviados no curto prazo, estruturas econômicas ainda em discussão no longo. Se o alívio veio de fora, quanto dele o Brasil consegue transformar em algo que permaneça quando o vento mudar?
Vitor Ribeiro
Correio Capital


