A redução da distância entre os candidatos coincide com uma piora na percepção dos eleitores sobre como Lula reagiu ao último tarifaço aplicado pelo governo americano de Donald Trump. Segundo a Quaest, a proporção de eleitores que avaliam que o presidente reagiu “mal” às tarifas subiu de 36% para 43%, ultrapassando pela primeira vez os que acreditam que ele reagiu “bem” (38%, ante 39% anteriormente).
No cenário de segundo turno, Lula mantém a liderança com 44% das intenções de voto contra 39% de Flávio — na pesquisa anterior, em julho, a diferença era de 45% a 37%. No primeiro turno, o petista marca 39% contra 30% do candidato do PL, uma redução de três pontos percentuais na vantagem. A margem de erro é de dois pontos percentuais, o que significa que parte das oscilações pode ser estatística, mas a tendência de aproximação é clara.
O efeito Trump e a classe média
A pesquisa foi realizada entre sexta-feira e segunda-feira passadas, período que capturou o impacto das novas tarifas americanas aplicadas ao Brasil no fim de julho. Tarifas são taxas cobradas sobre produtos importados — neste caso, Trump aumentou os impostos sobre mercadorias brasileiras que entram nos Estados Unidos, encarecendo-as para os consumidores americanos e prejudicando exportadores brasileiros. É como se o Brasil vendesse laranjas para os EUA e, de repente, o comprador decidisse cobrar uma taxa extra que torna a fruta brasileira mais cara que a da concorrência.
O desgaste foi particularmente forte entre eleitores independentes (sem preferência partidária definida) e de classe média. Entre os independentes, a aprovação do governo Lula recuou de 45% para 42%, enquanto a desaprovação subiu de 45% para 47%. Já entre eleitores que recebem mais de cinco salários mínimos (cerca de R$ 7.650 mensais), a desaprovação saltou de 54% para 58%. Esses são justamente os segmentos que o petista precisa conquistar para ampliar sua base eleitoral além do núcleo duro.
Flávio cresce entre conservadores
Segundo Felipe Nunes, CEO da Quaest, a melhora relativa de Flávio se explica pelo desempenho entre homens conservadores. Em um eventual segundo turno, o senador voltou a ultrapassar Lula no eleitorado masculino: 44% contra 40% do petista. Na pesquisa anterior, o cenário era o oposto. Entre eleitores da “direita não bolsonarista” — aqueles que se identificam com pautas conservadoras mas não necessariamente com a família Bolsonaro —, Flávio subiu de 74% para 81% das intenções de voto.
A rejeição de Flávio também recuou de 57% para 54%, embora ele continue sendo o candidato com maior percentual de eleitores que dizem conhecê-lo e não votar nele. Lula aparece logo atrás, com rejeição de 52%, ante 50% anteriormente. Ambas as variações estão dentro da margem de erro, mas indicam uma tendência de estabilização da imagem do senador após semanas turbulentas.
Comparação internacional
A situação brasileira guarda semelhanças com o que ocorreu na Argentina em 2023, quando o então presidente Alberto Fernández viu sua vantagem sobre o candidato de direita Javier Milei derreter em meio a uma crise econômica e percepção de fraqueza nas negociações internacionais. Lá, a sensação de que o governo não conseguia defender os interesses nacionais frente a credores externos contribuiu para a vitória de Milei. No Brasil, a percepção de que Lula não está sendo eficaz na defesa dos interesses brasileiros frente aos EUA caiu 13 pontos, de 59% para 46%.
Contexto político
A pesquisa foi realizada após as convenções partidárias que oficializaram as candidaturas, em meio às revelações de que a Polícia Federal abriu inquéritos para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, por suspeita de tráfico de influência (usar o cargo do pai para obter vantagens) e corrupção. Também captou o período após a reconciliação pública entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, vista como positiva por 59% dos eleitores. No entanto, a maioria do eleitorado (59%) não sabia que os dois haviam feito as pazes.
Apesar das oscilações nas intenções de voto, a avaliação geral do governo Lula permaneceu estável: 48% aprovam a gestão federal, ante 47% que a desaprovam — mesmos índices da pesquisa anterior. A aprovação, porém, avançou cinco pontos no Nordeste, tradicional reduto lulista, de 61% para 66%. A Quaest ouviu 2.004 eleitores entre 22 e 25 de agosto, com nível de confiança de 95%.
📊 Número do Dia
43% , Percentual de eleitores que avaliam que Lula reagiu “mal” ao tarifaço americano, superando pela primeira vez os que acreditam que ele reagiu “bem” (38%)
Por que isso importa
Para o cidadão, a pesquisa sinaliza que a percepção sobre a capacidade do governo de defender os interesses brasileiros em negociações internacionais afeta diretamente as intenções de voto — e isso pode influenciar as políticas públicas nos próximos meses, já que candidatos tendem a ajustar seus discursos conforme a opinião pública. Para investidores, a redução da vantagem de Lula aumenta a incerteza eleitoral, o que historicamente eleva a volatilidade nos mercados e pode afetar decisões de alocação de capital no Brasil. Para empresas exportadoras, o tema das tarifas americanas ganha centralidade no debate político, aumentando a pressão por uma resposta mais assertiva do governo.


