A fraude de atestados médicos virtuais tornou-se um problema econômico crescente para as empresas brasileiras. Um sindicato que representa quase cinco mil indústrias na Região Serrana e no Centro Norte do Rio registrou aumento de 20% nos atestados apresentados por funcionários em 2024. Ao investigar, o dirigente descobriu que era possível comprar atestados falsos por R$ 70 cada, para sete dias de afastamento, sem passar por nenhuma consulta médica.
O esquema funciona de forma simples e automatizada. Sites como “Atestado Rápido” e “Atestado Fácil” oferecem o documento em poucos minutos. O usuário preenche um questionário básico, escolhe a doença de uma lista pronta, seleciona o período de afastamento (que pode ser de 1 a 15 dias) e paga via PIX — tudo sem falar com médico algum. É como comprar um produto qualquer numa loja virtual, mas o “produto” é um documento que deveria atestar uma condição de saúde real. Para parecer mais legítimo, o cliente pode pagar R$ 9,99 a mais para incluir o código CID (a classificação internacional que identifica cada doença) e outros R$ 9,99 por um QR Code de verificação — que, na prática, não valida nada.
Um comerciante de Copacabana descobriu a fraude quando uma funcionária em período de experiência apresentou três atestados digitais em março, após já ter faltado várias vezes em fevereiro. Ao verificar o QR Code, ele constatou que não constavam o nome e o registro (CRM) da médica que supostamente assinou os documentos. Para ter certeza, o empresário fez um teste: acessou o mesmo site usado pela funcionária e conseguiu comprar para si, homem, um atestado de “dismenorreia” — termo médico para cólica menstrual intensa. Munido das provas, demitiu a funcionária por justa causa e registrou notícia-crime na 13ª DP (Ipanema).
O impacto nas empresas
Uma grande rede de varejo do Rio, com cerca de 15 mil funcionários, recebeu 15.828 atestados apenas no primeiro trimestre de 2025 — volume muito acima do padrão histórico. Diante do problema, a empresa criou um núcleo interno antifraude que já identificou 39 documentos falsos confirmados, com outros 1.500 ainda em análise. O processo envolve contato direto com as unidades de saúde para confirmar a assinatura do médico, o vínculo com o local informado e a validade do documento.
A diretora do Departamento Jurídico da rede afirma que “isso virou uma febre” e que foi necessário estruturar uma área específica para lidar com o problema. O custo para as empresas vai além da perda de produtividade: inclui gastos com investigação, processos jurídicos e a substituição emergencial de funcionários. Rafael Cardoso, diretor jurídico do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), confirma que as fraudes aumentaram a partir de 2024.
Comparação internacional
O Brasil não está sozinho nesse problema. Nos Estados Unidos, segundo dados do Departamento do Trabalho, estima-se que fraudes relacionadas a licenças médicas custem às empresas cerca de US$ 2,6 bilhões por ano. A diferença é que lá o sistema de saúde é majoritariamente privado e integrado digitalmente, o que facilita a verificação cruzada de informações. No Brasil, a fragmentação entre sistema público (SUS), privado e a recente regulamentação da telemedicina criaram brechas que facilitam a ação de fraudadores.
A resposta das autoridades
A Polícia Civil investiga os casos através da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), além das delegacias locais onde foram registradas as notícias-crime. O Conselho Federal de Medicina (CFM) tentou criar em 2024 a plataforma “Atesta CFM” para emitir, validar e verificar atestados de forma centralizada, mas a iniciativa está suspensa por decisão judicial. A ação foi movida por entidades que representam empresas de tecnologia, alegando que a medida foi imposta de forma unilateral e levanta preocupações sobre proteção de dados.
Segundo o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Antônio Braga, o atestado médico não pode ser fornecido sem consulta prévia: “O atestado médico é o epílogo de uma consulta”. A emissão de atestado falso pode resultar em pena de dois a três anos de prisão, além de multa. Para o trabalhador, a consequência costuma ser demissão por justa causa. Médicos que tiverem seus nomes usados indevidamente ou que participarem do esquema podem responder criminalmente e perder o registro profissional.
📊 Número do Dia
15.828 , atestados médicos recebidos por uma rede de varejo do Rio apenas no primeiro trimestre de 2025, volume muito acima do padrão e que levou à criação de um sistema antifraude
Por que isso importa
Para as empresas, a explosão de atestados falsos representa custos diretos com perda de produtividade, necessidade de substituições emergenciais e investimento em sistemas de verificação. Para o trabalhador honesto, a fraude generalizada pode levar empregadores a endurecer políticas de licença médica, dificultando o afastamento legítimo quando necessário. Para a economia como um todo, o problema corrói a confiança nas relações de trabalho e sobrecarrega o sistema de Justiça com processos de demissão por justa causa e investigações policiais.












