A indústria brasileira de baterias teme ser atropelada por importações no primeiro leilão de armazenamento de energia do país. Segundo três fontes ouvidas pela Reuters, fabricantes nacionais estão pressionando o governo para criar mecanismos de proteção que evitem que toda a demanda seja suprida por produtos importados — principalmente da China, que domina globalmente o mercado de baterias de lítio.
O leilão em questão visa contratar sistemas de armazenamento de energia (conhecidos como BESS, na sigla em inglês) para o sistema elétrico brasileiro. Essas baterias funcionam como grandes “power banks” que guardam energia quando há excesso de geração (como em dias muito ensolarados ou ventosos) e a devolvem à rede nos momentos de pico de consumo. A tecnologia é considerada essencial para integrar fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, que já representam mais de 30% da matriz elétrica brasileira.
A preocupação da indústria nacional tem fundamento: a China controla cerca de 75% da produção mundial de baterias de lítio, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). No Brasil, fabricantes locais como a Moura e empresas que receberam financiamento do BNDES para produção de baterias temem não conseguir competir com os preços chineses sem algum tipo de incentivo governamental. Em fevereiro de 2026, o BNDES aprovou R$ 280 milhões para projetos de produção de baterias no país, mas a escala ainda é incomparável à asiática.
A título de comparação, os Estados Unidos adotaram em 2022 o Inflation Reduction Act, que oferece créditos tributários robustos para produção local de baterias e componentes de energia limpa — uma tentativa declarada de reduzir a dependência chinesa. A União Europeia segue caminho semelhante, com metas de produzir localmente 90% das baterias que consome até 2030.
O dilema entre preço e desenvolvimento industrial
O governo brasileiro enfrenta um dilema clássico de política industrial: priorizar o preço mais baixo para o consumidor final de energia ou proteger a indústria nascente de baterias. Se o leilão não tiver nenhum incentivo ao conteúdo local, é provável que fabricantes chineses vençam pela competitividade de preço, mas isso pode inviabilizar investimentos já feitos no Brasil. Por outro lado, exigências muito rígidas de nacionalização podem encarecer o custo da transição energética.
Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, as fabricantes nacionais não pedem necessariamente reserva de mercado, mas mecanismos como pontuação extra para conteúdo local ou cotas mínimas de participação brasileira — modelos já usados em leilões de energia eólica e solar no passado.
📊 Número do Dia
75% — Fatia da produção mundial de baterias de lítio controlada pela China, segundo a Agência Internacional de Energia
Por que isso importa
Para o cidadão, a decisão do governo afetará o preço da conta de luz no médio prazo — baterias mais baratas (importadas) podem reduzir custos, mas baterias nacionais podem gerar empregos e desenvolvimento tecnológico local. Para empresas do setor, está em jogo a viabilidade de investimentos já realizados com apoio do BNDES. Para investidores, o desenho do leilão sinalizará se o Brasil adotará uma política industrial ativa na transição energética ou priorizará apenas eficiência de curto prazo.












