A Fictor, financeira que entrou em crise após tentar comprar o Banco Master em novembro passado, teve seu pedido de recuperação judicial aprovado pela Justiça de São Paulo. A empresa deve apresentar um plano de reestruturação em 60 dias para tentar pagar R$ 4,2 bilhões a 13.041 credores — um número próximo ao da recuperação judicial da Americanas, que envolveu 16.300 credores.
A decisão da juíza Fernanda Perez Jacomini reconhece que os documentos apresentados preenchem os requisitos legais, mas estabelece uma fiscalização rigorosa. A Justiça nomeou a consultoria PwC como “agente de monitoramento” para acompanhar de perto as atividades da empresa, após peritos encontrarem inconsistências nos documentos e suspeitas de fraude. O primeiro relatório deverá ser apresentado em 15 dias.
Por que a fiscalização especial?
Segundo o despacho judicial, peritos indicados pela Justiça identificaram “informações inconsistentes e documentações errôneas”, além de “suspeita de ações fraudulentas”. A solução encontrada foi aprovar a recuperação — para evitar que execuções individuais quebrassem a empresa e prejudicassem ainda mais os credores — mas com um “watchdog” (cão de guarda, em inglês) para vigiar cada passo da companhia. É como se a Fictor estivesse em liberdade condicional: pode continuar operando, mas sob vigilância constante.
A recuperação judicial é um mecanismo legal que permite a uma empresa em dificuldades financeiras negociar suas dívidas e evitar a falência. Durante o processo, que pode durar anos, a empresa fica protegida de ações judiciais de credores por 180 dias, ganha tempo para se reorganizar e propõe um plano de pagamento que precisa ser aprovado pelos credores em assembleia.
Quem são os credores?
Do total de credores, 11.549 são pessoas físicas que investiram R$ 2,54 bilhões na Fictor, atraídas por promessas de rendimentos de até 2% ao mês. Para comparação, um CDB (Certificado de Depósito Bancário, aplicação de renda fixa comum) de um grande banco paga cerca de 1% ao mês, enquanto a Selic (a taxa básica de juros da economia brasileira, usada como referência para investimentos) está em 14,75% ao ano — ou cerca de 1,15% ao mês. Segundo levantamento da plataforma Neot, a maioria dos credores está em São Paulo (8.921), seguido por Minas Gerais (1.136) e Rio de Janeiro (950).
A crise da Fictor começou em novembro de 2024, quando a empresa fez uma proposta de compra do Banco Master na véspera da liquidação da instituição. Desde então, sofreu uma crise de reputação e seus clientes sacaram cerca de R$ 3 bilhões em investimentos. A título de comparação internacional, casos semelhantes de financeiras que prometiam rendimentos acima do mercado e entraram em colapso ocorreram em diversos países — como o escândalo da Wirecard na Alemanha, que também envolveu fraudes contábeis e investidores pessoa física.
📊 Número do Dia
13.041 , credores da Fictor, número próximo ao da recuperação judicial da Americanas
Por que isso importa
Para os mais de 11 mil investidores pessoa física, a recuperação judicial representa a única chance de recuperar parte dos R$ 2,54 bilhões investidos — mas o processo pode levar anos e não há garantia de recebimento integral. Para o mercado financeiro, o caso reforça a necessidade de cautela com promessas de rentabilidade muito acima da média e a importância de verificar se a instituição é regulada pelo Banco Central. Para a economia brasileira, expõe novamente as fragilidades na fiscalização de empresas financeiras não reguladas, tema que ganhou destaque após a crise do Banco Master.












