Há semanas em que a economia global parece conspirar para confundir até os mais experientes — e esta foi uma delas.
A Leitura da Semana
Comecemos pelo inusitado: Donald Trump declarou publicamente que esperava uma alta maior no preço do petróleo com a escalada no Oriente Médio. Além disso, o Irã ameaçou tratar “de forma severa” a aproximação de navios militares ao Estreito de Ormuz, um ataque à Guarda Costeira do Paquistão deixou três mortos no Mar da Arábia, e Putin ofereceu mediação russa após o fracasso das negociações entre Washington e Teerã. Curiosamente, em meio a esse cenário que parece saído de um manual de crise geopolítica, o petróleo não cooperou com as expectativas — e a ANP registrou a primeira redução no preço do diesel desde o início da guerra. Para o Brasil, produtor relevante de petróleo com reservas provadas que cresceram 3,84% em 2025, a estabilidade dos preços representa um alívio para a inflação doméstica, contudo também uma frustração para a arrecadação de royalties.
Enquanto isso, no front doméstico, a prévia da carga tributária brasileira subiu para 32,4% do PIB em 2025 — confirmando que, se o petróleo não sobe como esperado, os impostos sobem como sempre. Dessa forma, o dado do Tesouro Nacional revela que, de cada R$ 100 produzidos no país, R$ 32,40 foram para os cofres públicos. A reforma tributária, que promete simplificar esse emaranhado, continua expondo contradições: 87% das empresas afirmam ter alto nível de automação fiscal, mas 62,2% levam mais de 20 dias para registrar uma nota fiscal. Ou seja, é como ter um carro de Fórmula 1 e dirigir a 40 km/h — a tecnologia está lá, mas o processo ainda engatinha.
Por fim, o dólar caiu para R$ 5,01 e a bolsa renovou recordes, beneficiada pelo otimismo externo e pela percepção de que o Brasil navega com relativa tranquilidade em meio à turbulência global. Em seguida, o ministro da Fazenda iniciou agenda internacional nos EUA e na Europa, levando a mensagem de responsabilidade fiscal que o mercado gosta de ouvir. Simultaneamente, o governo estuda permitir saques do FGTS e quer incluir inadimplentes do FIES em pacote contra endividamento — medidas que aliviam o bolso do cidadão, porém que precisarão ser financiadas de alguma forma.
Perspectiva & Olhar da Redação
O que conecta esses eventos aparentemente dispersos? Uma certa previsibilidade do imprevisível. De fato, o mundo está em ebulição geopolítica, mas os mercados parecem ter aprendido a conviver com o caos — ou, ao menos, a precificá-lo com mais eficiência. O Brasil, por sua vez, segue sua trajetória de país que cresce devagar, arrecada muito e promete simplificar processos que ainda funcionam como se estivéssemos nos anos 1990.
A boa notícia é que, em meio a tanta incerteza global, o país conseguiu entregar uma semana de relativa estabilidade: dólar em queda, bolsa em alta, inflação de combustíveis controlada. Em contrapartida, a má notícia é que essa estabilidade vem acompanhada de uma carga tributária que não para de subir e de uma burocracia que insiste em sabotar a própria modernização. É o Brasil que conhecemos: capaz de surfar crises externas com habilidade, no entanto ainda tropeçando em problemas internos que deveriam ter sido resolvidos há décadas.
A reforma tributária promete mudar isso. Além disso, as reservas de petróleo crescem. Da mesma forma, a tecnologia está disponível. Resta saber se 2026 será lembrado como o ano em que finalmente aceleramos — ou como mais um em que tivemos um carro de corrida e preferimos andar devagar. Afinal, de que adianta ter todas as ferramentas certas se continuamos usando as mesmas velhas desculpas?
— Vitor Ribeiro
Correio Capital












