Página inicial / Brasil no Mundo / Saneamento brasileiro se adapta aos extremos climáticos

Saneamento brasileiro se adapta aos extremos climáticos

Enchentes no RS e MG aceleram investimentos bilionários em infraestrutura hídrica e sistemas de monitoramento avançado
Engenheiro de capacete amarelo e colete laranja opera sistema de monitoramento digital em planta industrial infraestrutura
As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e em Minas Gerais em 2025 aceleraram mudanças no planejamento das operações de saneamento no Brasil. Concessionárias investem mais de R$ 10 bilhões em infraestrutura resiliente, monitoramento avançado e proteção ambiental.

O setor de saneamento brasileiro está passando por uma transformação profunda para lidar com eventos climáticos extremos. As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 e Minas Gerais em 2025 mostraram que as empresas responsáveis pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto precisam incorporar os riscos climáticos em seus planos operacionais. Isso significa investir em novos reservatórios (estruturas que armazenam água para períodos de escassez), interligações entre sistemas (conexões que permitem transferir água de uma região para outra) e monitoramento hidrológico mais avançado (acompanhamento em tempo real do nível e qualidade dos rios).

Segundo Carol Marques, coordenadora técnica da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon), um dos principais desafios é a integração entre municípios e concessionárias. A drenagem urbana — o sistema que evita alagamentos nas cidades — permanece sob responsabilidade das prefeituras, enquanto as empresas privadas cuidam do abastecimento de água e do esgoto. O problema é que chuvas intensas varrem as cidades e levam poluentes para os rios que abastecem a população, exigindo tratamento mais caro e complexo. É como se a sujeira das ruas fosse direto para a caixa d’água da cidade.

Investimentos bilionários em resiliência

A Cedae, que atua no Rio de Janeiro, está investindo R$ 5,4 bilhões até 2029 em segurança hídrica. Desse total, R$ 2,2 bilhões vão para o sistema Novo Guandu, que beneficiará cerca de 3 milhões de pessoas na Baixada Fluminense e na Zona Oeste do Rio. As novas Estações de Tratamento de Água (ETAs) — as “fábricas” que transformam água suja em água potável — receberão R$ 660 milhões para evitar quedas de produção causadas por folhas e galhos carregados pelos rios em períodos de chuva. A empresa também já plantou 4,5 milhões de mudas e recuperou 2 mil hectares de mata ciliar (a vegetação que protege as margens dos rios).

A Aegea, que controla a Águas do Rio e a Corsan no Rio Grande do Sul, investiu mais de R$ 1 bilhão em projetos de resiliência hídrica. Após as enchentes gaúchas, a empresa montou uma força-tarefa com mais de mil profissionais para restaurar sistemas, instalando reservatórios emergenciais, perfurando poços e implantando estruturas flutuantes. Em Manaus, onde o Rio Negro enfrentou duas das maiores estiagens da história, a solução foi rebaixar as bombas de captação e instalar bombas anfíbias — equipamentos que funcionam mesmo com o nível do rio muito baixo. No Piauí, a empresa vai investir R$ 8,6 bilhões em 35 anos para modernizar o abastecimento em áreas com secas recorrentes.

Comparação internacional

A título de comparação, países como Holanda e Japão, que enfrentam riscos climáticos há décadas, investem entre 1% e 2% do PIB anualmente em infraestrutura de adaptação climática. No Brasil, os investimentos em saneamento ainda representam cerca de 0,3% do PIB, segundo dados públicos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), mas estão crescendo com as novas concessões. A Sabesp, recém-privatizada em São Paulo, planeja investir R$ 5 bilhões em segurança hídrica e R$ 90 milhões no plantio de mais de um milhão de mudas nos próximos cinco anos.

René Silva, CEO da Iguá Saneamento, explica que desde 2023 a empresa faz estudos climáticos com base em cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — o grupo de cientistas da ONU que avalia o aquecimento global. No Rio de Janeiro, a Iguá avançou na dragagem (limpeza do fundo) do Complexo Lagunar e plantou 165 mil mudas de mangue, vegetação essencial para proteger a costa de tempestades.

📊 Número do Dia

R$ 10 bilhões , Investimentos combinados das principais concessionárias em resiliência hídrica e adaptação climática até 2029

Por que isso importa

Para o cidadão, esses investimentos significam menor risco de desabastecimento durante secas e enchentes, além de água de melhor qualidade. Para as empresas do setor, incorporar riscos climáticos deixou de ser opcional e passou a ser exigência contratual — a Sabesp, por exemplo, tem metas ambientais no contrato de concessão. Para investidores, o setor de saneamento se torna mais previsível e resiliente, reduzindo perdas operacionais causadas por eventos extremos que, segundo o IPCC, devem se intensificar nas próximas décadas.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/30/operacao-de-saneamento-muda-com-extremos-climaticos-como-enchentes-e-secas.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
Banner vertical do jornal Correio Capital com mensagem institucional convidando para acompanhar análises sobre a economia brasileira e assinar a newsletter.

Últimas notícias