O Brasil ainda está longe de garantir saneamento básico para todos. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), apenas 62,3% da população tinha acesso à coleta de esgoto em 2024 — ou seja, mais de um terço dos brasileiros ainda não conta com esse serviço essencial. O abastecimento de água está em situação melhor, alcançando 84,1% da população, mas ainda há um longo caminho até a universalização prevista no marco legal de 2020 para 2033.
As diferenças regionais são gritantes e revelam um Brasil profundamente desigual. Enquanto o Sudeste apresenta 90,5% de cobertura de água e 80,76% de coleta de esgoto, o Norte amarga apenas 60,91% e 22,84%, respectivamente. Para entender a dimensão do problema: imagine que, de cada dez casas no Norte do país, apenas duas têm esgoto coletado adequadamente — nas outras oito, o esgoto vai para fossas rudimentares (buracos no chão) ou é despejado diretamente no ambiente. Segundo Alesi Mendes, pesquisador do Centro de Estudos de Infraestrutura da FGV, essas fossas podem contaminar a água de poços e representam um risco grave à saúde pública.
O Nordeste também enfrenta déficits severos, com apenas 74,03% de cobertura de água e 33,79% de coleta de esgoto. Das 20 cidades com os piores indicadores entre os 100 municípios mais populosos do país, oito ficam no Norte e seis no Nordeste, segundo o Ranking do Saneamento divulgado pela Trata Brasil. Quatro dessas cidades estão no Pará e três em Pernambuco. A título de comparação, países como Chile e Argentina já superaram 95% de cobertura de esgoto em áreas urbanas, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde.
Desigualdade dentro dos próprios estados
Mesmo em regiões mais desenvolvidas, as periferias ficam para trás. O Rio de Janeiro, que faz parte do Sudeste — a região com melhor cobertura do país —, tem quatro cidades entre as 20 piores do ranking: Belford Roxo, São João de Meriti, Duque de Caxias e São Gonçalo. Luana Pretto, CEO da Trata Brasil, explica que, antes do marco legal de 2020, áreas irregulares como favelas não podiam ser atendidas pelas companhias de saneamento. “Existia todo um bloqueio em relação a isso”, afirma. A Águas do Rio, concessionária responsável por esses municípios, diz que investirá R$ 24,6 bilhões até 2033 para universalizar o saneamento.
Já São Paulo concentra nove das 20 cidades com os melhores indicadores. O bom desempenho paulista se deve a décadas de planejamento contínuo e grandes investimentos, tratando o saneamento como política de Estado desde a criação das companhias estaduais. Isso mostra que o problema não é apenas falta de dinheiro, mas também de continuidade e gestão eficiente.
Recursos existem, mas execução é o desafio
O governo federal previu R$ 60,6 bilhões em projetos de saneamento no Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) entre 2023 e 2025, segundo o Ministério das Cidades. Desse total, R$ 22 bilhões foram destinados ao esgotamento sanitário e R$ 15,2 bilhões ao abastecimento de água. Mas Alesi Mendes, da FGV, alerta que dinheiro sozinho não resolve: “Se os municípios com menor acesso recebessem hoje todo o recurso financeiro necessário, ainda assim poderiam não alcançar a universalização”.
O pesquisador argumenta que é preciso oferecer subsídio técnico e intelectual para que regiões mais deficitárias superem suas limitações. Além disso, a regulação precisa ser forte e independente, evitando que empresas privadas elevem tarifas de forma abusiva ou que prestadores públicos não cumpram metas de qualidade. Élcio Batista, do Insper, destaca outro obstáculo: muitas famílias de baixa renda não têm condições de pagar pela ligação da residência à rede, obra que pode custar entre R$ 3 mil e R$ 10 mil. A tarifa social prevista no marco legal é um caminho, mas insuficiente para garantir acesso universal.
📊 Número do Dia
37,7% , da população brasileira ainda não tem acesso à coleta de esgoto, segundo dados de 2024 do Sinisa
Por que isso importa
A falta de saneamento básico não é apenas uma questão de dignidade — é um problema de saúde pública e economia. Sem esgoto tratado, doenças como diarreia, hepatite e verminoses se espalham, sobrecarregando o sistema de saúde e reduzindo a produtividade da população. Para o cidadão, significa risco direto à saúde da família. Para empresas, especialmente no setor de saúde e turismo, representa custos adicionais e perda de competitividade. Para o investidor, o setor de saneamento oferece oportunidades, mas exige atenção às diferenças regionais e à capacidade de execução dos projetos.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/30/falta-saneamento-basico-a-mais-de-um-terco-da-populacao-brasileira.ghtml












