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Saneamento capta R$ 55,9 bilhões em debêntures desde 2020

Setor atrai investimento privado mesmo com Selic em 14,75% para acelerar universalização até 2033
Executiva de terno analisando documentos e gráficos de investimentos em laptop, mercado financeiro debêntures
Empresas de saneamento captaram R$ 55,9 bilhões em debêntures (títulos de dívida emitidos por empresas) desde 2020, adotando estratégia híbrida que combina mercado de capitais, bancos de fomento e títulos verdes no exterior para financiar a expansão da infraestrutura.

Mesmo com juros elevados — a Selic (taxa básica de juros da economia, que influencia o custo de todos os empréstimos) está em 14,75% ao ano —, o setor de saneamento segue atraindo capital privado. De 2020 a 2025, foram realizados 60 leilões que contrataram R$ 181,6 bilhões em investimentos, impactando 74 milhões de pessoas em 1.556 municípios. O objetivo é atingir a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033, meta que exigirá cerca de R$ 900 bilhões.

Para viabilizar esses investimentos, as concessionárias recorrem principalmente às debêntures incentivadas de infraestrutura — títulos de dívida criados em 2011 que funcionam como um empréstimo que a empresa faz com investidores, pagando juros ao longo do tempo. Esses papéis são atrativos porque oferecem isenção de Imposto de Renda para quem investe, tornando-os mais baratos para as empresas captarem recursos. Segundo a Anbima (associação que representa o mercado financeiro), o saneamento foi o terceiro setor que mais emitiu debêntures incentivadas em 2025, captando R$ 17,70 bilhões.

Apenas a Aegea e suas subsidiárias — como Águas do Rio e Corsan — emitiram 68 debêntures desde 2020, totalizando R$ 55,9 bilhões. “O setor exige investimentos muito grandes no início dos projetos, e por isso as empresas procuram dívidas de longo prazo que possam ser pagas com a receita tarifária ao longo dos anos”, explica Ivana Cota, advogada especializada em direito contratual. É como financiar a compra de uma casa: o investimento inicial é alto, mas o pagamento se estende por décadas.

Bancos públicos e organismos internacionais

Além do mercado de capitais, as empresas buscam financiamentos com juros mais baixos e prazos mais longos junto a bancos de fomento. O BNDES e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) são os principais agentes públicos de financiamento do setor, segundo especialistas. Águas de Manaus, por exemplo, recebeu R$ 980 milhões dessas instituições para expandir sua infraestrutura. A Caixa Econômica também financia 50% dos R$ 2,2 bilhões que a Cedae está investindo no Novo Guandu.

Por meio do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, iniciativa do governo federal para impulsionar obras de infraestrutura), os recursos destinados ao saneamento chegam a R$ 61 bilhões desde 2023, boa parte distribuída pela Caixa. “Eles são financiadores tradicionais de projetos de infraestrutura, principalmente por oferecerem taxas de juros mais competitivas e prazos de financiamento longos”, afirma Roberto Gonzalez, especialista em ESG.

Títulos verdes no mercado internacional

Empresas de maior porte também acessam o mercado internacional. A Sabesp, de São Paulo, captou R$ 33 bilhões desde o início de 2025 com diferentes fontes, incluindo blue bonds (títulos que financiam projetos de preservação de recursos hídricos e saneamento) no valor de US$ 2 bilhões. Esses títulos são chamados de “verdes” ou “azuis” porque os recursos captados devem ser usados exclusivamente em projetos ambientais, atraindo investidores preocupados com sustentabilidade.

A título de comparação, países como Chile e Colômbia também têm usado títulos verdes para financiar infraestrutura de saneamento, mas o Brasil se destaca pelo volume de captação e pelo ritmo acelerado de concessões desde o Marco Legal do Saneamento de 2020. Gesner Oliveira, especialista em infraestrutura e sócio da GO Associados, resume: “Na prática, as concessionárias têm adotado uma estrutura de financiamento híbrida, combinando recursos públicos e privados.”

📊 Número do Dia

R$ 900 bilhões , Volume estimado de investimentos necessários até 2033 para universalizar água e esgoto no Brasil

Por que isso importa

Para o cidadão, esses investimentos significam acesso a água tratada e coleta de esgoto — serviços que ainda faltam em milhões de domicílios brasileiros. Para empresas do setor, a diversificação de fontes de financiamento reduz o custo de capital e viabiliza projetos de longo prazo. Para investidores, as debêntures incentivadas oferecem isenção de IR e rentabilidade atrativa, mesmo em cenário de juros altos, enquanto títulos verdes atendem à demanda crescente por investimentos sustentáveis.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/30/empresas-recorrem-a-debentures-e-titulos-verdes-para-financiar-expansao-do-saneamento.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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