O leilão de reserva de capacidade realizado nesta quarta-feira (18) marcou um ponto de virada na segurança energética brasileira. Dessa forma, promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), pelo Ministério de Minas e Energia e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o certame teve 100 vencedores, com uma potência instalada de 29,7 mil megawatts e contratada de 18,9 mil megawatts. Por conseguinte, a receita total gerada foi de R$ 515,7 bilhões, com investimentos de R$ 64 bilhões e economia de R$ 33,6 bilhões, segundo informações da Agência Brasil.
Para entender a dimensão desses números: megawatt (MW) é a unidade que mede a capacidade de geração de energia de uma usina — mil megawatts equivalem a um gigawatt (GW), potência suficiente para abastecer cerca de 500 mil residências. Além disso, o leilão contratou potência de usinas hidrelétricas (que geram energia a partir da força da água) e termelétricas a carvão e gás natural (que queimam combustíveis para produzir eletricidade). Por outro lado, as termelétricas funcionam como um seguro: são acionadas quando as hidrelétricas não conseguem suprir a demanda, especialmente em horários de pico, como o início da noite, quando todos ligam luzes, chuveiros e aparelhos ao mesmo tempo.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, classificou o dia como “histórico” e afirmou que o problema de potência do sistema energético brasileiro fica solucionado pelos próximos dez anos. Portanto, segundo o ministro, contratar térmicas em leilão público, com custo fixo negociado, é muito mais barato do que acioná-las de forma emergencial — quando o governo precisa pagar o preço que o mercado exige no momento de aperto. De fato, é como a diferença entre contratar um seguro de carro com antecedência ou pagar por um guincho de emergência na estrada: o planejamento sempre sai mais em conta.
O leilão ocorreu em momento delicado no mercado global de energia. A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã provocou o fechamento do Estreito de Ormuz, a rota de exportação de petróleo mais importante do mundo, elevando os preços dos combustíveis. Por isso, esse contexto torna ainda mais relevante a contratação antecipada de energia no Brasil, protegendo o país de oscilações bruscas nos custos. Sobretudo, a título de comparação, países europeus enfrentaram crises energéticas severas em 2022 após a invasão da Ucrânia pela Rússia, com aumentos de até 300% nas tarifas residenciais — situação que o Brasil busca evitar com esse tipo de planejamento.
Os números do leilão
O preço-teto (valor máximo que o governo aceita pagar) para termelétricas novas foi fixado em R$ 2,9 milhões por MW/ano, enquanto para usinas existentes ficou em R$ 2,25 milhões por MW/ano. Da mesma forma, para hidrelétricas, o teto foi de R$ 1,4 milhão por MW/ano. Ou seja, esses valores representam quanto o governo pagará anualmente por cada megawatt de capacidade disponível, independentemente de a usina estar gerando energia ou não — é como pagar um aluguel pela garantia de que o imóvel estará disponível quando você precisar.
Ao todo, 330 projetos se inscreveram para o leilão, totalizando 120.386 MW de capacidade. O certame teve sete rodadas, com descontos (deságios) que variaram de 0,36% a 16,27% sobre os preços-teto, dependendo do produto e do ano de início do fornecimento. Por exemplo, a maior concorrência ocorreu para os produtos com entrega em 2031, quando o deságio chegou a 16,27% para termelétricas — sinal de que muitas empresas querem participar desse mercado.
O fornecimento das térmicas será de dez anos e o das hidrelétricas, de 15 anos. Em seguida, um terceiro leilão está previsto para sexta-feira (20), voltado para termelétricas movidas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel. O ministro Silveira afirmou acreditar que este seja um dos últimos leilões de energia não-renovável (aquela que usa combustíveis fósseis, como carvão e gás) contratado pelo governo, sinalizando uma transição gradual para fontes mais limpas.
Contexto internacional
A estratégia brasileira de contratar capacidade energética com antecedência contrasta com experiências recentes de outros países. Na Califórnia (EUA), a falta de planejamento levou a apagões em 2020, quando ondas de calor elevaram a demanda e o estado não tinha usinas de reserva suficientes. Anteriormente, no Brasil, o primeiro leilão desse tipo havia sido realizado em 2021, quando 4,6 gigawatts foram contratados — valor equivalente a um terço da geração da usina de Itaipu, a segunda maior hidrelétrica do mundo.
A Abrace Energia, associação que representa grandes consumidores industriais, defendeu a realização do leilão mas alertou para os custos. Segundo a entidade, se a contratação atingisse 10 GW, o impacto tarifário seria de R$ 45 por megawatt-hora (MWh); com 15 GW, subiria para R$ 67/MWh. Assim, para referência, a tarifa média residencial no Brasil gira em torno de R$ 500/MWh — portanto,












