A investigação atinge tanto países em desenvolvimento, acusados de usar trabalho forçado na produção, quanto economias ricas que supostamente importam esses produtos. De acordo com o comunicado do USTR (sigla em inglês para Escritório de Comércio da Casa Branca), a lista inclui os 60 maiores parceiros comerciais dos EUA — entre eles aliados tradicionais como Canadá, Reino Unido, Japão e Israel.
Para o Brasil, portanto, trata-se da segunda investigação sob a Seção 301 em menos de um ano. A primeira, aberta em julho de 2025 durante crise bilateral, tem escopo amplo: vai do uso do Pix até venda de falsificados na Rua 25 de Março, passando por desmatamento ilegal e acesso ao mercado de etanol. Contudo, essa investigação anterior ainda está em curso.
A Seção 301, criada pela Lei de Comércio de 1974, funciona assim como uma ferramenta de retaliação comercial. Imagine que o governo americano tem um “cartão vermelho” que pode mostrar a qualquer país: após investigação e audiências públicas, pode então impor tarifas sem limite de alíquota sobre produtos importados. No caso do Brasil, por exemplo, a sobretaxa aplicada em agosto de 2025 chegou a 40%, embora posteriormente tenham sido abertas exceções.
Segundo Jamieson Greer, chefe do USTR, “trabalhadores e empresas americanas foram obrigados a competir com produtores estrangeiros que podem ter uma vantagem artificial de custos obtida por meio dessa chaga do trabalho forçado”. As audiências sobre a investigação atual ocorrerão em 28 de abril, e governos, empresas e sociedade civil podem apresentar defesas por escrito até 15 de abril.
Contexto internacional
A ofensiva acontece, além disso, após derrota do governo Trump na Suprema Corte americana, que considerou ilegais, em 20 de fevereiro, suas tarifas globais. Como resposta, Washington abriu múltiplas frentes: além da investigação sobre trabalho forçado, lançou outra contra 16 países por “excesso de capacidade produtiva” e impôs tarifa universal de 10% sob a Seção 122 — que só pode vigorar por 150 dias.
A título de comparação, a União Europeia — que também está na lista — possui legislação própria desde 2024 proibindo importação de produtos feitos com trabalho forçado, mas enfrenta, no entanto, críticas pela dificuldade de fiscalização. A China, por sua vez, principal alvo das tarifas americanas desde 2018, já sofreu sobretaxas sobre centenas de bilhões de dólares em importações, especialmente em tecnologia e veículos elétricos.
Entre os 60 países investigados estão desde economias emergentes como Índia, Indonésia e Vietnã até parceiros do Golfo Pérsico como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A lista completa inclui ainda Argentina, Colômbia, México e Uruguai na América Latina, além disso, Rússia e Venezuela — países já sob sanções americanas por outras razões.
📊 Número do Dia
60 países , Total de nações investigadas pelos EUA por suposta falha no combate ao trabalho forçado, incluindo aliados tradicionais e os maiores parceiros comerciais americanos
Por que isso importa
Para empresas brasileiras que exportam aos EUA, a investigação representa, sobretudo, risco de novas tarifas sem limite de alíquota — a sobretaxa anterior chegou a 40%. Para o cidadão, da mesma forma, produtos importados podem encarecer se houver retaliação comercial, e setores como agronegócio e manufatura enfrentam incerteza. Para investidores, por outro lado, aumenta a volatilidade cambial e o risco-país, visto que o Brasil acumula duas investigações simultâneas sob a mesma legislação americana, sinalizando assim deterioração nas relações comerciais bilaterais.
Fonte original: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/03/estados-unidos-abrem-investigacao-sobre-trabalho-forcado-contra-60-paises.ghtml












