Cerca de 1,3 mil funcionários dos serviços exteriores americanos deixaram seus cargos desde o início do governo Trump, entre demissões e pedidos de desligamento. O presidente substituiu diplomatas de carreira por figuras de sua confiança pessoal, como o enviado especial Steve Witkoff e seu genro Jared Kushner, que passaram a conduzir negociações críticas para Washington. De 113 indicados para cargos de embaixador, 93 não são funcionários ativos da carreira diplomática — um percentual de 82,3%, superior ao de qualquer outra presidência americana desde que há registro.
Para entender a dimensão da mudança, imagine que uma empresa demitisse quase todos os seus gerentes experientes e os substituísse por amigos do dono, sem experiência na área. É exatamente isso que está acontecendo na diplomacia americana: profissionais que dedicaram décadas a entender outros países, suas culturas e idiomas estão sendo substituídos por indicações políticas.
O que muda para o Brasil
As negociações recentes sobre tarifas adicionais dos EUA a setores da economia brasileira ilustram o esvaziamento do Departamento de Estado. Segundo o diplomata Rubens Barbosa, embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004, as conversas comerciais não foram conduzidas pelo Departamento de Estado, mas pelo Departamento de Comércio, com decisões finais concentradas na Casa Branca. “Atualmente, quem decide é a Casa Branca”, afirmou Barbosa ao Globo.
A centralização das definições sobre política externa aumentou a influência do componente ideológico nas negociações. Marco Rubio, um político conservador conhecido pela oposição a regimes de esquerda na América Latina, acumula os cargos de secretário de Estado e conselheiro de segurança — uma combinação que reforça o viés político nas relações exteriores. A indicação de Daniel Perez como embaixador no Brasil sem o agrément (a aprovação formal) de Brasília foi apontada por autoridades brasileiras como tentativa de intervenção perto das eleições presidenciais.
Comparação internacional
A título de comparação, países como França e Reino Unido mantêm corpos diplomáticos profissionais altamente especializados, com carreiras que atravessam governos de diferentes orientações políticas. Nos EUA, tradicionalmente cerca de 30% dos embaixadores eram indicações políticas, enquanto 70% vinham da carreira diplomática — proporção que Trump inverteu completamente.
John Dinkelman, presidente da Associação Americana do Serviço Exterior (AFSA), organização não-partidária que representa a categoria profissional, alertou para os riscos da mudança. “Quando profissionais que dedicaram suas vidas à capacidade de trabalhar com o elemento diplomático do poder nacional são tirados de campo, a nação perde a capacidade de fazer as coisas de forma pacífica”, afirmou em entrevista exclusiva ao Globo. Ele classificou como “ato de estupidez” dispensar especialistas que conhecem o povo, a cultura, os idiomas e o histórico de relações com outros países.
Consequências práticas
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM, aponta que a desconfiança de Trump com funcionários de carreira tem raízes em seu primeiro mandato, quando diplomatas revelaram ter contido ímpetos do presidente para evitar crises internacionais. “Não houve só uma perda de know-how (conhecimento especializado). O know-how disponível não tem sido levado em consideração nas decisões”, disse Rudzit, citando a guerra com o Irã como exemplo. Segundo ele, diplomatas, militares e serviços de inteligência foram contrários à ação, mas Trump decidiu seguir o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Dinkelman afirma que o ambiente político em Washington criou uma crise de confiança interna. “Qualquer crítica agora é vista como oposição, e qualquer opositor é considerado um inimigo. Isso faz com que o sistema criado para gerar os melhores resultados possíveis fique travado”, disse. O resultado é que apenas alguns poucos indivíduos tomam decisões, normalmente mal fundamentadas, sem recorrer à expertise disponível.
📊 Número do Dia
82,3% , Percentual de embaixadores americanos indicados por Trump que não são diplomatas de carreira — o maior da história recente dos EUA
Por que isso importa
Para o Brasil, a mudança significa que negociações comerciais e diplomáticas com Washington passam a depender menos de canais técnicos e mais de conexões políticas diretas com a Casa Branca. Empresas brasileiras que exportam para os EUA e investidores com exposição ao mercado americano precisam acompanhar de perto as decisões tarifárias, que agora seguem uma lógica mais política e menos previsível. Para o cidadão, o impacto pode vir na forma de produtos importados mais caros ou dificuldades para brasileiros que desejam viajar ou estudar nos EUA, caso as relações diplomáticas se deteriorem.


