O Rally Forrageiras marca uma nova fase do projeto “Forrageiras para o Semiárido”, criado em 2017 pela CNA em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Durante dez anos, pesquisadores testaram 30 espécies de plantas forrageiras — aquelas usadas na alimentação animal, como gramíneas e palmas — em 27 propriedades rurais, buscando identificar quais se adaptam melhor às condições extremas de seca da região.
Os resultados são expressivos. Na Fazenda Várzea de Baraúna, em Miguel Calmon (BA), o produtor José Santos Souza viu sua produção de leite saltar de 40 litros por dia, com 14 vacas, para 441 litros diários, com 21 vacas em lactação — um aumento de mais de 1.000%. Segundo a coordenadora do projeto, Alenilda Carvalho, animais de corte que entraram no sistema com 200 kg alcançaram 500 kg em apenas onze meses, prontos para abate, superando a meta inicial de ganho de peso.
Como funciona a tecnologia
O projeto não oferece uma solução única para todo o Semiárido. Em Baixa Grande (BA), onde aconteceu o lançamento do Rally com cerca de mil produtores, os capins Piatã, Massai e Paiaguás se destacaram em produtividade, enquanto o Buffel Aridus mostrou maior resiliência à seca. Já a Palma Orelha de Elefante Mexicana pode produzir até 240 toneladas de matéria verde por hectare ao ano — imagine encher 240 caminhões de alimento para o gado em apenas um hectare, o equivalente a um campo de futebol.
A estratégia central é criar uma reserva estratégica de alimentos. É como ter uma despensa bem abastecida em casa: quando vem um período difícil, você não passa aperto. Seu Souza, como é conhecido o produtor baiano, mantém 100 toneladas de alimentos armazenados, suficientes para alimentar seu rebanho por até um ano de seca. “Depois do conhecimento, não morreu uma vaca de fome aqui”, afirmou.
O desafio do Semiárido brasileiro
O Semiárido brasileiro abrange cerca de 12% do território nacional e concentra parte significativa da pecuária nordestina. Segundo o vice-presidente da CNA, Humberto Miranda, só na Bahia existem 14 milhões de hectares de pastagens degradadas — áreas onde o solo empobrecido não produz alimento de qualidade para os animais. A título de comparação, a Austrália, que também enfrenta secas severas em suas regiões áridas, investe há décadas em pesquisa de forrageiras resistentes e sistemas de irrigação eficientes, tornando-se referência mundial em pecuária em condições adversas.
O projeto brasileiro agora testa adubação foliar por nanotecnologia — uma técnica que fornece nutrientes diretamente às folhas das plantas, como um soro aplicado direto na veia, aumentando a produtividade sem expandir a área plantada. Os pesquisadores estimam que essa inovação pode aumentar em 40% a produção de matéria verde da palma forrageira, permitindo alimentar mais animais no mesmo espaço.
Próximos passos
O Rally percorrerá nove estados até novembro, com eventos adaptados às características de cada região. O Senar capacitará 20 instrutores, dois por estado, para atuar como multiplicadores do conhecimento, e disponibilizará seis cursos à distância e seis cartilhas na plataforma Senar Play. O objetivo é que os mais de dez mil produtores já envolvidos no projeto sirvam de exemplo para outros pecuaristas da região.
📊 Número do Dia
1.000% , Aumento na produção de leite de um produtor baiano após adotar as tecnologias do projeto Forrageiras para o Semiárido
Por que isso importa
Para o produtor rural, a adoção dessas tecnologias representa a diferença entre perder o rebanho em períodos de seca ou manter a produção estável ao longo do ano. Para o consumidor, significa maior oferta de carne e leite a preços mais estáveis, já que a produção não sofre quedas bruscas na estiagem. Para o país, trata-se de tornar sustentável a pecuária em 12% do território nacional, uma região historicamente vulnerável às secas, reduzindo a necessidade de programas emergenciais e aumentando a segurança alimentar.


