Um levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou 544 anúncios fraudulentos explorando políticas públicas voltadas à população endividada para aplicar golpes. As peças foram encontradas no Instagram, Facebook, WhatsApp, Threads, Messenger e na Audience Network, serviço por meio do qual a Meta distribui anúncios em aplicativos de terceiros.
Segundo o estudo do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), foram identificados dois tipos de campanhas fraudulentas. A primeira utiliza o nome do Desenrola Brasil para se beneficiar da credibilidade do programa governamental, enquanto a segunda divulga um falso programa chamado “Libera Brasil”, apresentado como alternativa mais vantajosa. É como se golpistas criassem uma agência bancária falsa ao lado de uma verdadeira, aproveitando-se da confiança dos clientes.
O tamanho do problema
Documentos internos da Meta, obtidos pela agência Reuters em novembro de 2025, revelam que a empresa estimou que 10,1% de sua receita global em 2024 — cerca de US$ 16 bilhões — viria de anúncios promovendo golpes e itens proibidos. Para contextualizar, esse valor equivale a quase metade do orçamento anual do Bolsa Família, principal programa social brasileiro. Os mesmos documentos indicam que a Meta exibe diariamente até 15 bilhões de anúncios com fortes indícios de fraude.
“A questão é que remover esses anúncios significa reduzir receita”, afirma Luã Cruz, diretor da Ctrl+Z. A entidade argumenta que a Meta estaria lucrando com esse tipo de publicidade, criando um conflito de interesses entre segurança dos usuários e resultados financeiros.
Comparação internacional
O problema não é exclusivo do Brasil. A título de comparação, a União Europeia aprovou em 2022 a Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act), que obriga plataformas a removerem conteúdos ilegais rapidamente sob pena de multas de até 6% da receita global. Nos Estados Unidos, a Comissão Federal de Comércio (FTC) também intensificou a fiscalização sobre anúncios fraudulentos em redes sociais, resultando em acordos milionários com grandes plataformas.
Histórico de ações no Brasil
Esta não é a primeira vez que a Meta enfrenta questionamentos no país. A AGU já havia ajuizado uma ação civil pública contra a Facebook Brasil Ltda. por enriquecimento ilícito e danos morais coletivos decorrentes de falhas na verificação de anúncios fraudulentos que utilizavam imagens e símbolos do governo federal. Naquela ocasião, foram identificados cerca de 1.770 anúncios com esse tipo de conteúdo.
A AGU informou que avaliará o novo estudo e adotará as medidas cabíveis, ressaltando que “já vem atuando de forma preventiva e repressiva no combate a fraudes digitais envolvendo políticas públicas”. A Meta, por sua vez, afirmou que não permite atividades fraudulentas e remove anúncios enganosos assim que identificados.
📊 Número do Dia
US$ 16 bilhões , Receita estimada pela Meta em 2024 proveniente de anúncios promovendo golpes e itens proibidos, segundo documentos internos da empresa
Por que isso importa
Para o cidadão brasileiro endividado, a proliferação de anúncios fraudulentos representa risco direto de perda financeira e exposição de dados pessoais. Para empresas de tecnologia, o caso evidencia a crescente pressão regulatória sobre moderação de conteúdo e responsabilização por anúncios veiculados. Para investidores, sinaliza riscos reputacionais e potenciais custos jurídicos que podem afetar a operação de plataformas digitais no mercado brasileiro, especialmente diante do fortalecimento da fiscalização governamental.
Fonte original: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/08/entidade-pede-investigacao-da-meta-por-anuncios-fraudulentos-sobre-o-desenrola-brasil.ghtml


