O governo Lula prepara um programa de crédito subsidiado de R$ 4 bilhões voltado para entregadores de aplicativos comprarem ou trocarem suas motos. Segundo técnicos do governo ouvidos pelo jornal O Globo, a iniciativa deve beneficiar entre 700 mil e 1,2 milhão de trabalhadores em todo o país. Para ter acesso ao financiamento, o entregador precisará comprovar que trabalha para uma plataforma — como iFood, Rappi ou Loggi — há pelo menos seis meses.
O programa funciona como uma extensão do Move Aplicativos, lançado anteriormente para motoristas de app, mas com valores bem menores: enquanto o crédito para carros chegava a R$ 150 mil, o financiamento de motos girará em torno de R$ 17,8 mil, o preço médio de uma motocicleta no Brasil. Motos elétricas, que custam entre R$ 8 mil e R$ 9 mil, também poderão ser financiadas, sem exigência de que sejam fabricadas no país. É como se o governo oferecesse um empréstimo com juros mais baixos que os do mercado, usando dinheiro público para reduzir o custo final para o trabalhador.
Para reduzir os juros e proteger os bancos do risco de calote — alto entre trabalhadores informais com renda instável —, o governo usará um fundo garantidor público. O Fundo de Garantia de Operações (FGO), que funciona como uma espécie de seguro pago pelo governo caso o tomador não pague o empréstimo, é a principal alternativa em discussão. Ainda não está definido se haverá aportes adicionais ao fundo. Também se discute a cobrança de um seguro adicional, já que os bancos alegam dificuldade para recuperar motos em caso de inadimplência — diferentemente de carros, que são mais fáceis de rastrear e retomar.
A exigência de vínculo com uma plataforma tem uma razão prática: permitir que as parcelas do empréstimo sejam descontadas diretamente da remuneração creditada na conta do entregador. Esse mecanismo reduz o risco de calote e facilita a operação para os bancos, que terão uma fonte de pagamento automática. A título de comparação, programas similares de crédito subsidiado para trabalhadores informais existem em países como Índia e Colômbia, onde governos também usam fundos garantidores para ampliar o acesso ao crédito.
Contexto eleitoral
A pressa do presidente Lula em anunciar a medida ainda em junho de 2026 não é casual: trata-se de ano eleitoral. Segundo o O Globo, a linha de crédito faz parte de um “pacote de bondades” — medidas populares voltadas para ampliar o apoio político em ano de eleições. Programas de crédito subsidiado costumam ter apelo eleitoral porque entregam benefícios tangíveis a grupos específicos de eleitores, neste caso, uma categoria numerosa e visível nas ruas das grandes cidades brasileiras.
Entregadores de aplicativos formam uma das categorias que mais cresceram no Brasil nos últimos anos. Segundo dados públicos do IBGE, o país tem cerca de 1,5 milhão de trabalhadores em plataformas digitais, a maioria sem carteira assinada e com renda média mensal de R$ 1.500 a R$ 2.000. A moto é o principal instrumento de trabalho desses profissionais, e seu custo representa entre 10 e 12 meses de renda — um investimento pesado para quem vive na informalidade.
📊 Número do Dia
R$ 4 bilhões , Montante previsto pelo governo para financiar a compra de motos por entregadores de aplicativos, beneficiando até 1,2 milhão de trabalhadores
Por que isso importa
Para o trabalhador, a medida pode facilitar o acesso a um bem essencial para gerar renda, com juros menores que os do mercado. Para o governo, é uma aposta eleitoral em ano de eleições, mirando uma categoria numerosa e de alta visibilidade. Para o mercado, representa mais crédito subsidiado em circulação, com potencial impacto fiscal se a inadimplência for alta — o que pode pressionar as contas públicas e a percepção de risco do Brasil.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/09/governo-deve-destinar-cerca-de-r-4-bilhoes-em-linha-de-credito-para-entregadores.ghtml













