Entre junho de 2006 e dezembro de 2025, o preço dos alimentos no Brasil quadruplicou — um aumento de 302,6%, muito acima da inflação geral do país, que ficou em 186,6%. Segundo estudo do economista Valter Palmieri Junior, da Unicamp, divulgado pela ACT Promoção da Saúde, essa alta não é temporária nem acidental: trata-se de um problema estrutural, ou seja, enraizado no modo como a economia brasileira está organizada. Para entender: enquanto nos Estados Unidos o preço dos alimentos subiu apenas 1,5% acima da inflação geral no mesmo período, no Brasil a diferença chegou a 62%.
O mais preocupante é que os alimentos saudáveis ficaram proporcionalmente mais caros que os ultraprocessados. Frutas subiram 516,2%, carnes 483,5% e tubérculos 359,5%. Já refrigerantes ficaram 23,6% mais acessíveis em termos de poder de compra, e embutidos como presunto (69%) e mortadela (87,2%) também ganharam espaço no orçamento das famílias. Na prática, isso significa que quem destinava 5% do salário mínimo para comprar frutas em 2006 consegue levar 31% menos frutas hoje com a mesma proporção da renda — enquanto consegue comprar mais refrigerantes. É como se o carrinho de compras do brasileiro estivesse sendo empurrado para longe da feira e para dentro do corredor dos industrializados.
O modelo agroexportador pressiona os preços internos
Um dos principais fatores por trás dessa inflação persistente é o modelo agroexportador brasileiro. O Brasil exportava 24,2 milhões de toneladas de alimentos em 2000 e saltou para 209,4 milhões de toneladas em 2025, segundo o estudo. Isso significa que os produtores priorizam vender para fora, recebendo em dólares, em vez de abastecer o mercado interno. A área plantada com soja, milho e cana — produtos voltados principalmente para exportação — cresceu de 41,93 milhões para 79,30 milhões de hectares, uma expansão maior que todo o território da Alemanha. Enquanto isso, a área dedicada a arroz, feijão, batata e mandioca encolheu de 10,22 milhões para 6,41 milhões de hectares.
Outro problema é o custo dos insumos agrícolas, controlados por poucas empresas estrangeiras. Entre 2006-2008 e 2022-2024, o preço dos fertilizantes subiu 2.423% em reais, herbicidas 1.870% e colheitadeiras 1.765%, conforme dados do estudo. Quatro empresas estrangeiras controlam 56% do mercado global de sementes e 61% do mercado de pesticidas. Esse custo elevado atinge todos os produtores, inclusive o pequeno agricultor que planta feijão para o mercado interno — e esse custo é repassado ao consumidor final. É como se o Brasil produzisse cada vez mais comida, mas pagasse cada vez mais caro pelos instrumentos para produzi-la.
Concentração industrial e ‘inflação invisível’
A concentração também marca a indústria de alimentos: cinco marcas de duas empresas detêm 74,2% do mercado de margarina, e cinco marcas de três empresas controlam 83% do mercado de chocolates. Segundo Palmieri Junior, essa concentração facilita o repasse de custos e dificulta a concorrência que poderia baixar preços. Além disso, existe a chamada “inflação invisível”: produtos que mantêm o preço mas perdem qualidade, como sorvetes com menos leite e mais açúcar, ou chocolates com menos cacau. Essa piora não é captada pelos índices oficiais de inflação, mas corrói o poder de compra real das famílias.
O estudo sugere caminhos para reverter esse cenário: desconcentração produtiva, fortalecimento da Conab e das Ceasas (centrais de abastecimento estaduais), ampliação do acesso à terra e crédito agrícola condicionado ao abastecimento interno. Palmieri Junior cita que países desenvolvidos como Estados Unidos e nações europeias realizaram reformas agrárias que garantiram soberania alimentar e preços mais estáveis. “Se o alimento é barato, sobra mais dinheiro para o cidadão comprar outras coisas”, argumenta o economista, segundo a Agência Brasil.
📊 Número do Dia
302,6% — Aumento do preço dos alimentos no Brasil entre 2006 e 2025, contra 186,6% da inflação geral — uma diferença de 62 pontos percentuais
Por que isso importa
Para o cidadão, essa inflação estrutural significa que uma fatia cada vez maior da renda familiar vai para a comida, sobrando menos para educação, saúde e lazer. Para as empresas, o encarecimento dos insumos agrícolas pressiona margens e dificulta o planejamento. E para o investidor, entender que a inflação de alimentos no Brasil é estrutural — e não passageira — ajuda a calibrar expectativas sobre juros, consumo e setores ligados ao agronegócio e à alimentação.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/estudo-aponta-fatores-estruturais-para-inflacao-de-alimentos-no-brasil












