Há semanas em que a economia brasileira se comporta como um aluno aplicado que descobre, na véspera da prova, que estudou a matéria errada.
A Leitura da Semana
A escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã — com Washington estudando operações terrestres que podem durar semanas — escancarou uma vulnerabilidade que o Brasil vinha empurrando com a barriga: o país importa entre 20% e 30% do diesel que consome, segundo José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras. Dessa forma, quando o petróleo dispara no mercado internacional por causa de conflitos no Estreito de Ormuz, o Brasil não tem como se proteger sozinho. Por isso, a resposta do governo foi pragmática: um subsídio de R$ 1,20 por litro de diesel importado, válido até maio, para evitar que a alta chegue às bombas e aos supermercados. Contudo, é uma solução cara, temporária e que não resolve o problema estrutural — mas evita o caos imediato.
Enquanto isso, a economia doméstica seguiu em ritmo próprio, quase alheio ao barulho externo. Por exemplo, o desemprego subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, ante 5,2% no trimestre anterior — mas continua em patamar historicamente baixo. No entanto, a alta reflete mais sazonalidade do que deterioração: de fato, o mercado de trabalho brasileiro segue aquecido, com mais gente procurando emprego do que perdendo vaga. Paralelamente, o governo zerou por quatro meses a tarifa de importação de 191 bens de capital e produtos de informática, revertendo parcialmente os aumentos de tarifas impostos no ano passado. Assim, a medida busca aliviar o custo de produção da indústria num momento em que o câmbio pressiona importações — e revela, sobretudo, a dificuldade de manter uma política comercial coerente quando o cenário muda a cada semana.
No mercado financeiro, a semana trouxe um movimento curioso: apesar da guerra, o dólar caiu 1,27% e a bolsa subiu 3%. Ou seja, a divergência entre câmbio e ações sugere que os investidores estão separando o risco geopolítico — que afeta petróleo e commodities — do risco Brasil, que segue relativamente controlado. Dessa forma, o Ibovespa se beneficiou da queda do dólar e da percepção de que o governo está agindo rápido para conter os efeitos da crise externa. Contudo, a tranquilidade pode ser enganosa: visto que, se a guerra se prolongar, o subsídio ao diesel vira conta permanente — e aí a conversa muda de tom.
Perspectiva & Olhar da Redação
O que essa semana revela, no fundo, é uma economia brasileira que funciona bem no curto prazo mas patina no longo. Por exemplo, o mercado de trabalho está forte, o governo responde rápido às crises, os investidores confiam. No entanto, a dependência energética, a política comercial errática e a falta de planejamento estrutural continuam ali, esperando a próxima turbulência para voltar à tona. Por conseguinte, o Brasil está ficando bom em apagar incêndios — mas ainda não aprendeu a evitar que eles comecem.
A ironia é que, enquanto o país se orgulha de ser autossuficiente em petróleo, em contrapartida, descobre que não refina o suficiente para atender a própria demanda. De fato, é como ter uma fazenda cheia de café e importar Nescafé do Paraguai. Portanto, a diferença é que, no caso do diesel, a conta é paga por todos — e chega na forma de subsídio, inflação ou ambos.
A boa notícia é que o Brasil tem margem para absorver choques externos sem entrar em pânico. Por outro lado, a má notícia é que essa margem não é infinita — e cada crise desperdiçada sem reforma estrutural é uma oportunidade perdida. Além disso, o mercado parece acreditar que o governo vai segurar as pontas. Finalmente, a pergunta é: até quando segurar as pontas será suficiente, se ninguém está consertando o telhado?
— Vitor Ribeiro
Correio Capital












