Pular para o conteúdo
terça-feira, 18 de agosto de 2026 Brasil

Economia com profundidade. Decisões com confiança.

Mercados
Carregando cotações...
DÓLAR --
BRT 

Carta da Redação — A Semana da Economia

A guerra no Irã expõe a dependência energética do Brasil, enquanto a economia doméstica segue firme. Até quando apagar incêndios será suficiente?

Executivo de terno analisando gráfico de alta do petróleo em monitor de computador em escritório financeiro, mercado energia
Profissional acompanha valorização de 5% nos preços do petróleo em meio aos conflitos no Oriente Médio.

Há semanas em que a economia brasileira se comporta como um aluno aplicado que descobre, na véspera da prova, que estudou a matéria errada.

A Leitura da Semana

A escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã — com Washington estudando operações terrestres que podem durar semanas — escancarou uma vulnerabilidade que o Brasil vinha empurrando com a barriga: o país importa entre 20% e 30% do diesel que consome, segundo José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras. Dessa forma, quando o petróleo dispara no mercado internacional por causa de conflitos no Estreito de Ormuz, o Brasil não tem como se proteger sozinho. Por isso, a resposta do governo foi pragmática: um subsídio de R$ 1,20 por litro de diesel importado, válido até maio, para evitar que a alta chegue às bombas e aos supermercados. Contudo, é uma solução cara, temporária e que não resolve o problema estrutural — mas evita o caos imediato.

Enquanto isso, a economia doméstica seguiu em ritmo próprio, quase alheio ao barulho externo. Por exemplo, o desemprego subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, ante 5,2% no trimestre anterior — mas continua em patamar historicamente baixo. No entanto, a alta reflete mais sazonalidade do que deterioração: de fato, o mercado de trabalho brasileiro segue aquecido, com mais gente procurando emprego do que perdendo vaga. Paralelamente, o governo zerou por quatro meses a tarifa de importação de 191 bens de capital e produtos de informática, revertendo parcialmente os aumentos de tarifas impostos no ano passado. Assim, a medida busca aliviar o custo de produção da indústria num momento em que o câmbio pressiona importações — e revela, sobretudo, a dificuldade de manter uma política comercial coerente quando o cenário muda a cada semana.

No mercado financeiro, a semana trouxe um movimento curioso: apesar da guerra, o dólar caiu 1,27% e a bolsa subiu 3%. Ou seja, a divergência entre câmbio e ações sugere que os investidores estão separando o risco geopolítico — que afeta petróleo e commodities — do risco Brasil, que segue relativamente controlado. Dessa forma, o Ibovespa se beneficiou da queda do dólar e da percepção de que o governo está agindo rápido para conter os efeitos da crise externa. Contudo, a tranquilidade pode ser enganosa: visto que, se a guerra se prolongar, o subsídio ao diesel vira conta permanente — e aí a conversa muda de tom.

Perspectiva & Olhar da Redação

O que essa semana revela, no fundo, é uma economia brasileira que funciona bem no curto prazo mas patina no longo. Por exemplo, o mercado de trabalho está forte, o governo responde rápido às crises, os investidores confiam. No entanto, a dependência energética, a política comercial errática e a falta de planejamento estrutural continuam ali, esperando a próxima turbulência para voltar à tona. Por conseguinte, o Brasil está ficando bom em apagar incêndios — mas ainda não aprendeu a evitar que eles comecem.

A ironia é que, enquanto o país se orgulha de ser autossuficiente em petróleo, em contrapartida, descobre que não refina o suficiente para atender a própria demanda. De fato, é como ter uma fazenda cheia de café e importar Nescafé do Paraguai. Portanto, a diferença é que, no caso do diesel, a conta é paga por todos — e chega na forma de subsídio, inflação ou ambos.

A boa notícia é que o Brasil tem margem para absorver choques externos sem entrar em pânico. Por outro lado, a má notícia é que essa margem não é infinita — e cada crise desperdiçada sem reforma estrutural é uma oportunidade perdida. Além disso, o mercado parece acreditar que o governo vai segurar as pontas. Finalmente, a pergunta é: até quando segurar as pontas será suficiente, se ninguém está consertando o telhado?

— Vitor Ribeiro
Correio Capital