O Banco Central produziu entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 um documento jurídico detalhado alertando o TCU sobre os perigos de desfazer a liquidação do Master. O parecer, elaborado pela Procuradoria-Geral do BC, veio a público após decisão do presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Renan Calheiros. A preocupação da autoridade monetária surgiu diante de sinalizações do relator do caso no TCU, ministro Jhonatan de Jesus, que cogitava medidas para reverter ou suspender o processo.
Segundo o BC, uma reversão da liquidação provocaria imediatamente uma corrida bancária — fenômeno em que clientes e investidores tentam resgatar seus recursos ao mesmo tempo, levando à quebra da instituição. Liquidação extrajudicial é o processo pelo qual o Banco Central assume o controle de um banco em crise, vende seus ativos (prédios, investimentos, carteiras de crédito) de forma ordenada e usa o dinheiro para pagar os credores, respeitando uma fila legal. É como quando uma empresa entra em recuperação judicial, mas no caso dos bancos o processo é conduzido pelo BC para proteger o sistema financeiro.
O parecer destaca que outros bancos também correriam para receber seus créditos com o Master, agravando a crise de liquidez (falta de dinheiro em caixa para honrar compromissos imediatos) que originou a liquidação. A venda dos ativos do banco seria prejudicada, com queda ainda maior nos preços, e haveria pagamentos desordenados privilegiando credores com maior poder de cobrança — violando o princípio legal de que todos os credores da mesma categoria devem ser tratados igualmente.
Comparação internacional
A preocupação do BC brasileiro ecoa experiências internacionais. Durante a crise financeira de 2008, países como Islândia e Chipre enfrentaram corridas bancárias devastadoras quando a confiança no sistema foi abalada, levando ao colapso de grandes bancos e exigindo resgates bilionários. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (equivalente ao BC americano) também tem poder de liquidar bancos em crise, e qualquer sinalização de reversão desses processos é vista como ameaça à estabilidade do sistema — a título de comparação, segundo dados do Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), desde 2001 mais de 560 bancos americanos foram liquidados sem reversões.
A Procuradoria do BC ressalta que mesmo a simples suspensão do processo, sem reversão completa, já seria prejudicial. Impediria a venda tempestiva de ativos, gerando incapacidade de honrar compromissos essenciais à manutenção da instituição durante a liquidação, além de desvalorizar ainda mais os bens do banco. O documento aponta que isso “fragilizaria a credibilidade do BCB enquanto autoridade de resolução bancária”.
Embate com o governo do DF
O relatório técnico do TCU incorporou praticamente todos os argumentos do BC e concluiu que a autoridade monetária agiu corretamente. Os técnicos da Corte de Contas também criticaram duramente a gestão do Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal, que tentou comprar o Master mas não teve a operação aprovada pelo BC. Segundo a análise, o GDF tentou ao longo de 2025 usar o TCU para forçar o BC a aprovar a compra, em atuação que poderia ensejar processo contra a administração de Ibaneis Rocha.
O caso Master expõe a tensão entre interesses políticos regionais e a necessidade de preservar a estabilidade do sistema financeiro nacional. O BC argumenta que ceder a pressões para reverter liquidações comprometeria sua capacidade de atuar em futuras crises bancárias, criando insegurança jurídica e incentivando gestões irresponsáveis.
📊 Número do Dia
560+ , bancos foram liquidados nos EUA desde 2001 sem reversões, segundo o FDIC — demonstrando que a irreversibilidade é prática internacional para preservar estabilidade financeira
Por que isso importa
Para o cidadão comum, a firmeza do BC em manter liquidações protege a poupança e os depósitos no sistema bancário — se reversões fossem permitidas, a confiança nos bancos seria abalada e corridas bancárias se tornariam mais frequentes. Para investidores, a segurança jurídica dos processos de resolução bancária é fundamental para avaliar riscos e precificar ativos financeiros. Para empresas, um sistema financeiro estável garante acesso contínuo a crédito e serviços bancários essenciais às operações diárias.












