Página inicial / Negócios / Brasil busca autonomia no ciclo nuclear completo

Brasil busca autonomia no ciclo nuclear completo

País domina técnica de conversão de urânio, mas precisa construir infraestrutura para reduzir dependência externa
Técnico em traje de proteção opera painel de controle em laboratório nuclear brasileiro com equipamentos industriais
O Brasil está investindo para dominar o ciclo completo do urânio — da extração do minério à produção de combustível nuclear — como estratégia de soberania energética e tecnológica, segundo especialistas reunidos no Nuclear Summit, evento realizado pela Abdan no Rio de Janeiro.

O Brasil quer deixar de depender de outros países para transformar seu urânio em combustível nuclear. Atualmente, o país extrai o minério em Caetité (BA) e faz o enriquecimento em Resende (RJ), mas a etapa intermediária — a conversão do concentrado de urânio em hexafluoreto — ainda é feita no exterior. Segundo a ENBpar, empresa ligada ao Ministério de Minas e Energia, o país já domina a técnica, contudo falta construir a infraestrutura necessária para fechar o ciclo em território nacional.

A energia nuclear funciona como uma usina térmica, mas em vez de queimar carvão ou gás, usa o calor gerado pela fissão de átomos de urânio para produzir vapor e girar turbinas. A grande vantagem é que essa fonte não depende de sol, vento ou chuva — ou seja, fornece energia 24 horas por dia, todos os dias do ano. As duas usinas em operação no país, Angra 1 e Angra 2, geram juntas 2 gigawatts (GW), potência suficiente para abastecer uma cidade como Belo Horizonte, com 2,3 milhões de habitantes, segundo a Agência Brasil.

Comparação internacional

A título de comparação, a França gera cerca de 70% de sua eletricidade a partir de usinas nucleares, enquanto o Brasil depende hoje de menos de 3% dessa fonte. Países como Estados Unidos, China e Rússia dominam todo o ciclo do urânio e exportam tecnologia e combustível nuclear, posição que o Brasil almeja alcançar. Por isso, o presidente da Abdan, Celso Cunha, defende que o país pode “ganhar muito dinheiro vendendo combustível” em vez de exportar minério bruto, que não agrega valor.

Angra 3 e o dilema dos R$ 24 bilhões

A usina Angra 3 está com as obras paralisadas e custa cerca de R$ 1 bilhão por ano ao país apenas em manutenção. Um estudo do BNDES aponta que abandonar definitivamente o projeto custaria entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões — valor que pode superar os R$ 24 bilhões estimados para concluir a obra. Dessa forma, se finalizada, Angra 3 adicionaria 1,4 GW ao sistema elétrico brasileiro. Portanto, a decisão cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que reúne diversos ministérios.

No dia 10 de março, o Brasil aderiu à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear até 2050, compromisso assinado em Paris que busca ampliar a capacidade instalada dessa fonte no mundo. A iniciativa ganha força em um cenário de transição energética e instabilidade geopolítica, com conflitos internacionais elevando o preço do petróleo e do gás natural. Assim, para o professor Júlio César Rodriguez, da UFSM, dominar a tecnologia nuclear coloca o Brasil “em nível de desenvolvimento industrial, tecnológico e científico mais alto, dos atores mais importantes do mundo”.

Apesar de ser considerada limpa por não emitir gases de efeito estufa, a energia nuclear gera resíduos radioativos que precisam ser armazenados com segurança por milhares de anos. Por conseguinte, a Comissão Nacional de Energia Nuclear trabalha na definição de um repositório definitivo para as pastilhas de urânio usadas, com previsão de conclusão até 2029.

📊 Número do Dia

R$ 24 bilhões — Custo estimado para concluir Angra 3 — valor similar ao de abandonar a obra definitivamente

Por que isso importa

Para o cidadão, dominar o ciclo nuclear significa energia mais barata e estável no longo prazo, sem depender de importações ou do clima. Além disso, para empresas, representa oportunidades em uma cadeia industrial de alta tecnologia. Da mesma forma, para investidores, a decisão sobre Angra 3 e a construção da usina de conversão podem movimentar bilhões em contratos e abrir caminho para o Brasil exportar combustível nuclear, agregando valor a um minério que hoje sai bruto do país.


Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/energia-nuclear-e-estrategica-para-soberania-defende-industria

Foto de Vitor Ribeiro

Vitor Ribeiro

Jornalista especializado em comércio internacional e economia global. Cobre as exportações brasileiras, o agronegócio e as relações comerciais do Brasil com o mundo. No Correio Capital, assina as seções Comércio Global e Brasil no Mundo.
Banner vertical do jornal Correio Capital com mensagem institucional convidando para acompanhar análises sobre a economia brasileira e assinar a newsletter.

Últimas notícias