A guerra no Oriente Médio criou a maior crise de abastecimento de petróleo já registrada. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) — órgão que coordena os estoques das nações ricas da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) —, o conflito está afetando 7,5% da oferta mundial de petróleo. Para se ter uma ideia da gravidade, é como se de repente desaparecesse do mercado todo o petróleo produzido por países como Canadá e México juntos.
O problema começou quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro, levando petroleiros (navios que transportam petróleo) a interromper o trânsito pelo estreito de Ormuz. Essa passagem marítima, localizada entre o Irã e a Península Arábica, é vital para o mercado global: por ali circulavam 20 milhões de barris diários de petróleo bruto e derivados no ano passado. Agora, os fluxos caíram mais de 90%, segundo a AIE.
O impacto nos preços e na produção
O conflito reduzirá a oferta mundial de petróleo em oito milhões de barris por dia neste mês, informou a AIE em seu relatório mensal divulgado nesta quinta-feira. Para contextualizar, oito milhões de barris equivalem a cerca de 8% do consumo diário mundial — uma interrupção sem precedentes na história recente do mercado. O petróleo Brent (referência internacional) voltou a superar US$ 100 por barril em Londres, sendo negociado a US$ 96,43 na manhã desta quinta, com alta de 4,84%.
O fechamento efetivo do estreito de Ormuz obrigou produtores do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, a interromper a produção de cerca de 10 milhões de barris por dia no total. Embora esses países possam desviar parte de suas exportações por rotas alternativas — como um desvio que um motorista faz quando uma estrada principal está bloqueada —, a capacidade é limitada e mais cara. A título de comparação, durante a crise do petróleo de 1973, quando países árabes embargaram exportações para nações que apoiavam Israel, a interrupção afetou cerca de 5% da oferta global, menos do que a atual.
A resposta internacional
Para tentar acalmar o mercado, os membros da AIE concordaram em liberar um volume sem precedentes de 400 milhões de barris de reservas de emergência. Os Estados Unidos disponibilizarão 172 milhões de barris desse total a partir de sua Reserva Estratégica de Petróleo (uma espécie de poupança de emergência que o governo mantém para crises), embora o secretário de Energia, Chris Wright, tenha alertado que levará cerca de 120 dias para concluir a entrega.
A AIE também reduziu drasticamente sua previsão de crescimento do consumo global de petróleo neste ano para 640 mil barris por dia — uma queda de cerca de 25% em relação à projeção anterior. A alta dos preços, os cancelamentos de voos e a incerteza econômica estão afetando a demanda, explicou a agência. É o nível mais baixo de crescimento projetado desde que a entidade começou a apresentar estimativas para 2026, em abril do ano passado.
Riscos além do petróleo bruto
O fechamento de Ormuz também coloca em risco cerca de quatro milhões de barris por dia de capacidade regional de refino (as fábricas que transformam petróleo bruto em gasolina, diesel e outros produtos). As restrições na disponibilidade de matéria-prima limitam a capacidade de outras regiões de compensar a escassez, criando riscos particulares para o abastecimento de diesel e combustível de aviação. Nesta quinta-feira, dois petroleiros foram atingidos em águas iraquianas e Omã evacuou seu principal terminal de exportação de petróleo, sinalizando que a crise pode se agravar.
Antes da crise, a AIE projetava um excedente recorde de petróleo para este ano, já que o aumento da oferta nas Américas — impulsionado por Estados Unidos, Canadá, Guiana e Brasil — superava o crescimento do consumo. Agora, o choque de oferta reduziu em pouco mais de um terço as projeções para um superávit global em 2026, para cerca de 2,4 milhões de barris por dia.
📊 Número do Dia
7,5% , da oferta mundial de petróleo está afetada pela crise no Oriente Médio, segundo a Agência Internacional de Energia — a maior interrupção da história do mercado global
Por que isso importa
Para o cidadão brasileiro, a crise significa preços mais altos na bomba de combustível, já que o Brasil importa derivados de petróleo e os preços internos acompanham as cotações globais. Para empresas, especialmente do setor de transporte e aviação, os custos operacionais devem subir significativamente. Para investidores, a volatilidade no mercado de energia cria tanto riscos quanto oportunidades, especialmente em ações de petroleiras brasileiras como Petrobras, que podem se beneficiar de preços mais altos, e em setores sensíveis ao custo de combustível, como companhias aéreas, que tendem a sofrer.












