O Rio de Janeiro enfrenta um paradoxo educacional: o Ideb subiu, mas a aprendizagem dos alunos caiu para o pior nível em 16 anos. Em 2025, a rede estadual obteve nota média padronizada de 4,04 no Saeb — uma combinação dos resultados de Português e Matemática —, empatada com a Bahia como a mais baixa do país. Enquanto isso, o Ideb do ensino médio fluminense subiu de 3,3 para 3,7, deixando o estado empatado com Roraima, Amapá e Amazonas na penúltima posição nacional, à frente apenas do Distrito Federal (3,6).
A explicação para esse aparente contrassenso está na forma como o Ideb é calculado. O índice combina dois fatores: a aprendizagem medida pelo Saeb e a taxa de aprovação (quantos alunos passam de ano). Em 2023, o Rio permitiu que estudantes reprovassem em até seis disciplinas e ainda assim avançassem para o ano seguinte. Com isso, a taxa de aprovação explodiu de 80% para 91% entre 2023 e 2025. É como se uma empresa melhorasse sua nota de satisfação facilitando a pesquisa, sem necessariamente melhorar o produto.
O cenário nacional
O Brasil avançou no Ideb em todas as etapas de ensino, mas ainda não atingiu as metas estabelecidas para 2021 em duas delas. Nos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano), o país alcançou 6,3, superando a meta de 6. Já nos anos finais (6º ao 9º ano), ficou em 5,3, abaixo da meta de 5,5. O ensino médio é o mais distante: o Brasil obteve 4,5, quando deveria ter chegado a 5,2 em 2021 — patamar que também não bate as metas de 2019 (5) nem de 2017 (4,7).
A estratégia de flexibilizar a aprovação se espalhou pelo país. O Pará foi pioneiro ao elevar para cinco o número de disciplinas em que um aluno podia reprovar e ainda passar de ano. A taxa de repetência caiu de 11% em 2022 para 0,7% em 2023, fazendo o estado saltar da penúltima para a sexta posição no ranking nacional. Rio Grande do Norte e Paraíba seguiram o exemplo, adotando o limite de seis disciplinas. A título de comparação, em países como Finlândia e Coreia do Sul — referências em educação —, a progressão automática existe, mas vem acompanhada de reforço escolar obrigatório e acompanhamento individualizado, não apenas da mudança de critério.
Quem se destaca
O Paraná lidera o Ideb nas três etapas de ensino entre as redes públicas estaduais, sem adotar flexibilização nas regras de aprovação. O estado obteve 6,9 nos anos iniciais, 5,8 nos anos finais e 5,1 no ensino médio. Rio Grande do Sul e Piauí também se destacaram no ensino médio, com saltos significativos impulsionados por melhor desempenho na aprendizagem, não apenas na aprovação. O Rio Grande do Sul passou da 15ª para a 5ª posição, enquanto o Piauí subiu da 7ª para a 2ª.
A aprendizagem brasileira em Matemática voltou aos níveis pré-pandemia, mas em Português ainda patina. Em Matemática, as notas de 2025 praticamente igualaram as de 2019 nas três etapas. Em Português, houve leve crescimento. Por exemplo, no ensino médio, a nota de Português subiu de 278,4 (2019) para 279,0 (2025), enquanto Matemática foi de 277,3 para 276,5 no mesmo período. A escala vai de 0 a 500 pontos.
📊 Número do Dia
91% , Taxa de aprovação no ensino médio da rede estadual do Rio em 2025, contra 80% em 2023, após permitir reprovação em até seis disciplinas
Por que isso importa
Para o cidadão, a notícia revela que um Ideb mais alto nem sempre significa melhor educação — pode ser apenas resultado de critérios mais frouxos de aprovação. Para as famílias fluminenses, significa que seus filhos estão passando de ano, mas aprendendo menos. Para o mercado de trabalho, sinaliza que os jovens que chegam ao ensino superior ou ao primeiro emprego podem ter deficiências de formação mais graves, exigindo investimento adicional em capacitação. E para o país, mostra que o desafio educacional brasileiro vai além dos números: é preciso garantir aprendizagem real, não apenas aprovação estatística.


