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quarta-feira, 26 de agosto de 2026 Brasil

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Move Brasil libera crédito subsidiado para motoristas hoje

A partir de hoje, motoristas de aplicativo e taxistas começam a ter acesso ao crédito do Move Brasil, programa do governo federal que oferece financiamento subsidiado para compra de carros zero. São R$ 30 bilhões disponíveis, repassados pelo Ministério da Fazenda ao BNDES, para veículos de até R$ 150 mil.

Move Brasil libera hoje R$ 30 bi em crédito subsidiado para motoristas comprarem carros zero. Programa pode elevar vendas em 15%, mas inadimplência é desafio.

O Move Brasil, programa de crédito subsidiado do governo federal, começa a liberar financiamentos hoje para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem carros zero. São R$ 30 bilhões disponíveis, com juros de 0,99% ao mês para homens e 0,91% para mulheres — taxas bem abaixo das praticadas no mercado, que giram em torno de 1,89% ao mês. O prazo de pagamento é de até 72 meses (seis anos), com carência de até seis meses para começar a pagar. Segundo a Bright Consulting, consultoria especializada no setor automotivo, o programa pode elevar as vendas de veículos leves em até 15%.

Mais de 600 mil motoristas já se inscreveram no programa, mas o principal desafio não será a atratividade dos juros, e sim a aprovação de crédito. Hoje, 81 milhões de brasileiros estão inadimplentes — ou seja, com dívidas atrasadas e nome sujo na praça. Quem está nessa situação não consegue financiamento. “Caso a operacionalização seja eficiente, o programa poderá representar um importante estímulo para a indústria automotiva, com pelo menos 180 mil unidades vendidas ao longo dos próximos 12 meses”, projeta Cássio Pagliarini, diretor da Bright Consulting. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que representa as montadoras, já admite que pode elevar sua previsão de vendas para 2026, atualmente em 2,6 milhões de unidades.

Para entender o impacto na prática: num carro de R$ 100 mil, com 50% de entrada e o restante financiado em 24 meses, o motorista economiza mais de R$ 6 mil em juros comparado a um financiamento tradicional, segundo cálculos da Bright Consulting. É como se, ao final do pagamento, ele tivesse ganhado de volta o equivalente a quase três meses de trabalho — a renda média dos motoristas é de R$ 2,5 mil por mês, segundo pesquisa do IBGE divulgada em 2024.

Estão habilitadas 11 montadoras e 42 modelos de veículos, todos sustentáveis: flex (que rodam com etanol e gasolina), híbridos, elétricos ou movidos exclusivamente a etanol. Carros movidos apenas a gasolina ou diesel ficaram de fora. Entre os modelos disponíveis estão o Chevrolet Onix (a partir de R$ 101.790), o Fiat Argo (R$ 97.990), o Volkswagen Polo (R$ 96.690) e até elétricos como o BYD Dolphin Mini (R$ 109.990) e o Chevrolet Spark EUV (R$ 144.990). A disputa pelos motoristas já acirrou a guerra de preços: a chinesa GWM oferece o modelo ORA 03 por R$ 150 mil, enquanto no mercado ele custa R$ 169 mil. A Jeep reduziu o preço do Compass Sport de R$ 174.990 para R$ 120.430.

Comparação internacional e renovação de frota

Programas de crédito subsidiado para renovação de frotas são comuns em economias emergentes, especialmente para reduzir emissões de poluentes. A título de comparação, a Índia lançou em 2023 o esquema FAME (Faster Adoption and Manufacturing of Electric Vehicles), que subsidia a compra de veículos elétricos para motoristas de transporte público e aplicativos, com descontos de até 40% no preço final. No Brasil, o Move Brasil tem foco semelhante: além de estimular a indústria automotiva, busca colocar carros mais novos, seguros e menos poluentes nas ruas. Segundo Milad Kalume, da Klume Consultoria, o programa “tende a acelerar a troca de veículos antigos por modelos mais novos e tecnológicos, renovando a frota, reduzindo emissões e colocando carros mais seguros em circulação”.

O potencial de vendas é estimado entre 180 mil e 250 mil veículos, dependendo da taxa de aprovação de crédito. Se todos os R$ 30 bilhões forem usados em carros de R$ 150 mil, seriam 200 mil unidades. Mas como o tíquete médio dos veículos mais usados por motoristas gira em torno de R$ 120 mil, o número pode chegar a 250 mil, segundo Kalume. Para efeito de comparação, isso equivale a um mês inteiro de vendas de veículos leves no Brasil — de janeiro a maio de 2026, foram emplacadas quase 1,1 milhão de unidades, segundo a Anfavea.

Impacto nas locadoras e no bolso do motorista

Cerca de 25% dos carros alugados no Brasil vão para taxistas e motoristas de aplicativo, segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla). Com o crédito mais barato, parte desses profissionais pode optar por comprar o próprio veículo. O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, fez as contas: “Se o motorista comprar um carro financiado de R$ 149 mil, em 72 meses e carência de seis meses, vai pagar em torno de R$ 3.850 de prestação, enquanto a locação desse carro, por mês, sai em torno de R$ 6 mil”. Ou seja, a parcela do financiamento seria 36% mais barata que o aluguel — uma economia de mais de R$ 2 mil por mês.

Para ampliar o alcance, o governo incluiu motoristas no Programa Emergencial de Acesso a Crédito (FGI-PEAC), que cobre até 80% do risco de inadimplência. Isso funciona como um seguro para os bancos: se o motorista não pagar, o governo banca a maior parte do prejuízo. A medida é importante porque, em programas anteriores de estímulo ao carro zero, quando os juros estavam mais baixos, muitos compradores ficaram inadimplentes. Além disso, o Marco Legal das Garantias, aprovado em 2023, permite que os bancos retomem o carro diretamente pelos cartórios, sem precisar de processo judicial demorado — o que reduz o risco para as instituições financeiras.

Izabel Rodrigues, taxista há 28 anos, avalia como justa a taxa menor para mulheres: “A grande maioria tem horário relativamente curto em comparação com o de outros taxistas”, diz ela, referindo-se à jornada dupla de trabalho e casa. Já Alessandra Cruz, motorista de aplicativo, vê o programa como positivo, mas pondera que “nem todos vão conseguir aderir por causa de restrições no nome” — ou seja, por estarem inadimplentes.

📊 Número do Dia

R$ 6 mil , Economia em juros ao financiar um carro de R$ 100 mil pelo Move Brasil, em comparação com crédito tradicional

Por que isso importa

Para o motorista, o programa pode significar a diferença entre alugar um carro por R$ 6 mil mensais ou pagar parcelas de R$ 3.850 — uma economia de mais de R$ 2 mil por mês. Para a indústria automotiva, são até 250 mil carros novos vendidos, o equivalente a um mês inteiro de vendas no país. Para o cidadão comum, significa mais carros novos, seguros e menos poluentes circulando nas ruas, além de um possível aquecimento da economia. Mas o sucesso depende de um fator crítico: a capacidade de aprovação de crédito numa base de 81 milhões de brasileiros inadimplentes.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2026/06/19/move-brasil-comeca-a-liberar-hoje-credito-para-motoristas-de-aplicativo-e-taxistas-venda-de-carros-deve-subir-15percent.ghtml