O Brasil está longe de cumprir a meta do Marco Legal do Saneamento, que prevê até 2033 levar água tratada a 99% da população e coleta e tratamento de esgoto a 90%. Segundo o levantamento da Abes, baseado em dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), os principais obstáculos são o tratamento de esgoto, a gestão de resíduos sólidos e as desigualdades regionais. Para entender a dimensão do problema: imagine que, de cada 100 cidades brasileiras, apenas 4 estão no caminho certo para oferecer saneamento completo à população.
O estudo classificou os municípios em quatro categorias, da pior para a melhor: “Primeiros passos”, “Empenho”, “Compromisso” e “Rumo à universalização”. A categoria “Empenho” concentra 73,9% das cidades avaliadas, onde a média de tratamento de esgoto nas grandes cidades é de apenas 39,73%. Isso significa que, em média, menos da metade do esgoto produzido nessas cidades recebe tratamento antes de ser despejado em rios e mananciais — o equivalente a jogar dejetos diretamente na natureza, contaminando fontes de água e aumentando riscos à saúde pública.
A desigualdade regional é gritante. Enquanto 82,79% dos municípios do Sudeste enviaram dados suficientes para o ranking, apenas 13,11% das cidades do Norte fizeram o mesmo. Nenhum dos 59 municípios da região Norte com dados completos alcançou as duas classificações mais altas. A título de comparação, países como Chile e Uruguai já ultrapassaram 95% de cobertura de tratamento de esgoto em áreas urbanas, segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), mostrando que a universalização é viável mesmo em economias emergentes.
O custo da falta de saneamento
A relação entre saneamento precário e doenças é direta: nos municípios de pequeno e médio porte na categoria mais crítica, a taxa média de internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado (como diarreias, hepatite A e febre tifoide) é de 198,85 por 100 mil habitantes. Nas cidades classificadas como “Rumo à Universalização”, essa taxa cai para 84 por 100 mil — uma redução de mais da metade. Entre os grandes municípios, o padrão se repete: a taxa salta de 31,94 internações por 100 mil habitantes nas cidades melhor avaliadas para 65,60 nas piores.
“Quando o saneamento avança, a doença recua. Investir em saneamento é reduzir internações, proteger crianças, aliviar o sistema de saúde e gerar retorno social para o país”, afirma Marcel Sanches, presidente da Abes. Para o cidadão, isso significa menos gastos públicos com saúde que poderiam ser evitados — recursos que, em vez de tratar doenças, poderiam ser investidos em educação ou infraestrutura.
Destaques e desafios
Entre as capitais, Curitiba lidera o ranking como a única na categoria “Rumo à Universalização”. Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Aracaju aparecem na segunda melhor categoria. No extremo oposto, Porto Velho registra o pior desempenho entre as capitais, seguida por Belém, Macapá e Manaus — todas na região Norte. Entre os municípios de pequeno e médio porte, cinco cidades paulistas alcançaram pontuação máxima: Cardoso, Gastão Vidigal, Jales, Paranapuã e Santópolis do Aguapeí.
📊 Número do Dia
3,67% , Percentual de municípios brasileiros próximos da universalização do saneamento, segundo levantamento da Abes
Por que isso importa
Para o cidadão, a falta de saneamento significa maior risco de doenças evitáveis e pressão sobre o sistema de saúde. Para as empresas, especialmente do setor de infraestrutura e concessões, o Marco Legal do Saneamento representa uma oportunidade de investimento estimada em centenas de bilhões de reais até 2033. Para o investidor, o setor de saneamento ganha relevância como aposta de longo prazo, mas os dados mostram que o cumprimento das metas exigirá esforço muito além do atual — e que as desigualdades regionais podem criar riscos de execução para projetos no Norte e Nordeste.












