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El Niño ameaça economia da Região Serrana do Rio

Super El Niño ameaça economia da Região Serrana do Rio com secas, ondas de calor e chuvas intensas. Especialistas alertam para riscos em área com 72 mil em zonas vulneráveis.
Especialistas de universidades do Rio e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) alertam para a chegada do super El Niño ao Brasil, com 82% de probabilidade de se formar até julho, segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA).

O El Niño — fenômeno climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico que altera o regime de chuvas em todo o planeta — deve trazer impactos significativos para a Região Serrana do Rio de Janeiro a partir de agosto. Segundo simulações do Laboratório de Monitoramento e Modelagem de Sistema Climático (Lammoc) da UFF, coordenado por Márcio Cataldi, a região enfrentará um cenário incomum: junho e julho, normalmente secos, devem ser mais chuvosos que o normal, enquanto o período seco se estenderá de agosto até o início de dezembro, com ondas de calor e risco de incêndios.

A partir da segunda quinzena de dezembro, quando o fenômeno mudar de fase, o risco maior virá das chuvas prolongadas causadas pelas Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) — corredores de nuvens que se estendem da Amazônia até o Oceano Atlântico e provocam temporais intensos e duradouros. Para entender a dimensão: a tragédia de 2011 na Região Serrana, que deixou mais de 900 mortos, foi causada justamente por esse tipo de sistema meteorológico, potencializado por condições climáticas extremas.

Impactos econômicos além das vidas

A economia da Região Serrana depende fortemente de agricultura, turismo e pequenos negócios — setores extremamente vulneráveis a eventos climáticos extremos. O meteorologista Fabio Hochleitner, do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da UFRJ, explica que o aumento anômalo de temperatura a partir de agosto pode criar tempestades convectivas — quando o calor evapora a umidade do solo, formando grandes nuvens que despejam chuva intensa em pouco tempo, acompanhadas de granizo e rajadas de vento. Em áreas montanhosas como Petrópolis e Teresópolis, isso significa enxurradas que podem destruir plantações, estradas e estabelecimentos comerciais.

A título de comparação, durante o El Niño de 2015-2016 — um dos mais fortes já registrados — o Brasil sofreu perdas agrícolas estimadas em bilhões de reais, com quebra de safras no Nordeste e Sul. A diferença agora é que a Região Serrana, ainda marcada pela tragédia de 2011, convive com 72 mil pessoas morando em áreas de risco apenas em Petrópolis, segundo a Comissão das Vítimas das Tragédias da Serra. Casas interditadas foram reocupadas, alugadas ou vendidas, e novas construções surgiram em encostas e margens de rodovias, ampliando a vulnerabilidade econômica e social.

Padrão global e incertezas locais

Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, pondera que ainda é cedo para determinar a intensidade máxima do El Niño, mas a expectativa é que ele atinja seu pico no fim de 2026 ou início de 2027. Historicamente, o fenômeno provoca secas na Amazônia e no Nordeste, e chuvas acima da média no Sul — o Rio de Janeiro fica numa zona de transição, onde os impactos são mais irregulares. Isso significa que a região pode alternar entre períodos de seca intensa e chuvas torrenciais, dificultando o planejamento de agricultores, comerciantes e gestores públicos.

Para o cidadão comum, é como se o calendário climático ficasse embaralhado: o verão pode chegar mais tarde, o inverno pode ser mais quente, e as chuvas podem vir todas de uma vez, em vez de se distribuírem ao longo dos meses. Essa imprevisibilidade afeta desde o preço dos alimentos (pela quebra de safras) até o custo de seguros e a viabilidade de negócios que dependem de fluxo turístico constante.

📊 Número do Dia

82% , Probabilidade de formação do El Niño até julho de 2026, segundo a NOAA (EUA)

Por que isso importa

A chegada do super El Niño à Região Serrana do Rio representa risco triplo: para vidas humanas em áreas vulneráveis, para a economia local (agricultura, turismo e comércio) e para as contas públicas, que precisarão arcar com obras emergenciais e reconstrução. Com 72 mil pessoas em áreas de risco só em Petrópolis e construções irregulares proliferando, o custo de não se preparar pode ser medido em bilhões de reais e centenas de vidas — como já ocorreu em 2011. Para investidores, setores como seguros, construção civil e agronegócio na região merecem atenção redobrada nos próximos meses.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/06/07/especialistas-fazem-simulacoes-sobre-o-super-el-nino-fenomeno-que-assusta-quem-viveu-tragedia-com-900-mortos-ha-15-anos.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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