Em jantar com mais de trinta arquitetos americanos, setor brasileiro de rochas naturais inaugura agenda rumo à principal feira norte-americana do segmento — após exportar US$ 795 milhões aos Estados Unidos em 2025, apesar de tarifas que chegaram a 50%.
O evento, batizado de “Brazil Stone Experience – Washington DC Edition”, reuniu mais de trinta arquitetos, designers e profissionais da construção civil americana, e inaugurou a agenda internacional do setor rumo à KBIS 2027 — a principal feira norte-americana dos segmentos de cozinhas, banheiros e design de interiores, prevista para 2 a 4 de fevereiro de 2027 em Las Vegas. Foi promovido pela Centrorochas e pela ApexBrasil, por meio do projeto setorial It’s Natural – Brazilian Natural Stone.
Um ano que era para ser catastrófico
O número de US$ 795 milhões para os Estados Unidos impressiona porque foi alcançado num ano que, no papel, deveria ter sido devastador para o setor. As tarifas adicionais anunciadas em julho de 2025 chegaram a 50% sobre alguns produtos brasileiros, atingindo diretamente granitos e mármores. Os efeitos foram visíveis: queda de 8,7% no volume de granitos exportados e de 7,5% nos mármores, segundo dados da Centrorochas. O presidente da entidade, Tales Machado, estima que, sem o tarifaço, o setor teria fechado o ano próximo de US$ 1,6 bilhão — em vez dos US$ 1,48 bilhão efetivamente registrados, ainda assim um recorde histórico que supera o pico anterior, de 2021.
O que sustentou o resultado foi uma combinação de três fatores: avanço dos quartzitos, beneficiados por exceção tarifária e em forte demanda; valorização do preço médio de exportação (+14,2% sobre 2024); e diversificação de mercados, com a China subindo a US$ 260,1 milhões (+19%) e a Itália surpreendendo com US$ 117,7 milhões (+42,2%). É a primeira vez que o setor demonstra, com números, que pode absorver um choque tarifário americano sem perder dinâmica — desde que tenha alternativas geográficas em movimento.
O cálculo de Washington
A escolha da embaixada como ponto de partida da agenda KBIS 2027 não é decorativa. O mercado americano de cozinhas e banheiros é avaliado em US$ 235 bilhões, e a KBIS, junto ao International Builders’ Show, reuniu mais de 117 mil profissionais em sua edição de 2026. Para o setor brasileiro, presença na feira não é novidade — empresas exportadoras frequentam o evento há anos. O que mudou é o grau de articulação institucional em torno dela.
A delegação que desembarcou em Washington trouxe o vice-presidente da Centrorochas, Fábio Cruz, o gerente do projeto setorial Thiago Fukuda, a head de comunicação institucional Karina Porto-Firme e duas empresas exportadoras — Milanezi Granitos e Santo Antonio Stones. A embaixada ofereceu o espaço institucional mais nobre da capital americana. A leitura, traduzida em ação, é a de que a relação com o principal mercado do setor não pode mais depender apenas de feiras e canais tradicionais: precisa de presença diplomática contínua e de especificação técnica nos projetos americanos de alto padrão, onde a margem absorve oscilações tarifárias e a origem brasileira passa a operar como marca, não como simples ponto de extração.
A engenharia do evento seguiu um manual conhecido: cocktail em ambiente premium, apresentação executiva, networking informal e um sorteio aspiracional. A vencedora, Sarah Wilson, da Chansaerae Design Firm, ganhou imersão completa na cadeia produtiva brasileira durante a Cachoeiro Stone Fair 2026, em agosto, em Cachoeiro de Itapemirim. O Espírito Santo, vale lembrar, concentra 78,5% das exportações brasileiras do setor.
A meta dos US$ 3 bilhões
O pano de fundo da agenda diplomática é uma meta formalizada pelo setor em fevereiro deste ano, em cerimônia no Congresso Nacional: US$ 3 bilhões em exportações até 2030 — praticamente o dobro do faturamento atual em cinco anos. A equação inclui diversificação geográfica, com destaque para o Brazilian Natural Stone Hub no Oriente Médio (parceria assinada em 2025 com o Porto de Abu Dhabi), modernização logística e, sobretudo, reposicionamento na cadeia de valor americana.
Aqui mora a aposta. O Brasil é tradicionalmente forte no fornecimento de blocos brutos e chapas semi-acabadas — produtos commodity onde compete diretamente com Índia, Turquia, China e Itália. A estratégia da especificação, voltada a arquitetos e designers, busca empurrar as rochas brasileiras um degrau acima na cadeia: para projetos residenciais e comerciais de alto padrão, onde a sensibilidade tarifária é menor e a marca-país pesa mais.
A pergunta que fica é se o playbook é transferível. Cafés especiais e cachaças premium demonstraram, na última década, que produtos brasileiros podem subir na hierarquia de valor americana — mas o fizeram em segmentos B2C, com ciclos de compra curtos e relação direta com o consumidor final. Rochas naturais operam em outra lógica: ciclo de especificação de meses a anos, intermediação obrigatória de arquitetos e fabricantes, sensibilidade a frete e tarifas em cada elo da cadeia. Convencer trinta designers numa noite em Washington é um exercício diplomático bem-sucedido. Convertê-los em especificadores recorrentes ao longo dos vinte meses que separam o setor da KBIS 2027 é outro tipo de trabalho — e é nele que a meta dos US$ 3 bilhões será ganha ou perdida.


