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Governo dobra crédito para caminhões e reduz juros

Move Brasil amplia para R$ 21,2 bilhões financiamento de frota rodoviária com prazo de 10 anos e carência estendida
Homem de boné assinando documentos em balcão de atendimento com funcionária pública, bandeira do Brasil ao fundo, crédito governamental
O governo federal lançou nesta quinta-feira (30) a segunda fase do programa Move Brasil, dobrando o crédito disponível para renovação da frota de caminhões de R$ 10 bilhões para R$ 21,2 bilhões. A nova etapa inclui financiamento de ônibus e reduz juros para caminhoneiros autônomos de 14% para 11,3% ao ano.

O programa Move Brasil acaba de ganhar fôlego: o governo federal anunciou R$ 21,2 bilhões em crédito subsidiado para renovação da frota de caminhões, ônibus e implementos rodoviários — mais que o dobro dos R$ 10 bilhões da primeira fase, esgotados em apenas três meses. Segundo a Agência Brasil, a iniciativa é operada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o banco público de fomento) em parceria com outras instituições financeiras, com recursos do próprio BNDES (R$ 6,7 bilhões) e do Tesouro Nacional (R$ 14,5 bilhões).

A mudança mais significativa atinge os caminhoneiros autônomos — aqueles que trabalham por conta própria, sem vínculo com grandes transportadoras. Eles agora podem parcelar o financiamento em até 10 anos (120 meses), com carência de 12 meses para começar a pagar, e a taxa de juros caiu para 11,3% ao ano. Antes, a carência era de apenas seis meses, o prazo máximo era de cinco anos e os juros superavam 14%. Para entender: é como se o caminhoneiro tivesse um ano inteiro para começar a gerar receita com o veículo novo antes de pagar a primeira parcela, e pudesse diluir o custo por uma década — condições bem mais generosas que as de um financiamento de automóvel comum, que costuma ter juros acima de 20% ao ano no Brasil.

O transporte rodoviário move cerca de 60% das cargas do país, segundo o governo, mas enfrenta um problema crônico: a frota está velha. Caminhões obsoletos consomem mais combustível, poluem mais, quebram com frequência e aumentam o risco de acidentes. Isso encarece o frete — custo que acaba repassado ao preço final de alimentos, roupas e todos os produtos que chegam ao consumidor. A título de comparação, nos Estados Unidos o transporte rodoviário responde por cerca de 70% das cargas, mas a idade média da frota é menor e há programas de renovação mais consolidados, o que contribui para maior eficiência logística.

O que muda na prática

Além de caminhões, a nova fase do Move Brasil passa a financiar ônibus, micro-ônibus e implementos rodoviários (reboques, carrocerias). O valor máximo por beneficiário continua em R$ 50 milhões. Para os autônomos, foram reservados R$ 2 bilhões do total. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou esperar que os fabricantes reduzam os preços dos veículos como contrapartida — uma forma de pressão para que parte do subsídio público se traduza em preços menores, e não apenas em margem maior para a indústria.

O presidente Lula cobrou publicamente os bancos públicos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES) por maior agilidade na liberação de crédito para os pequenos. Segundo ele, de R$ 1 bilhão destinado inicialmente aos autônomos, apenas R$ 200 milhões haviam sido liberados, porque os bancos preferem atender grandes empresas — “é muito melhor receber um cliente só para pedir R$ 2 bilhões, do que receber 1 mil clientes para pegar R$ 2 mil cada um”, disse o presidente. A crítica expõe um dilema clássico do crédito subsidiado: os recursos públicos podem acabar concentrados nas mãos de quem já tem acesso facilitado ao mercado financeiro.

Exigências ambientais e reciclagem

Os financiamentos estão condicionados a critérios de sustentabilidade: veículos com menor consumo de combustível e menores emissões de poluentes têm prioridade. Quem entregar um caminhão velho para reciclagem consegue taxas ainda mais reduzidas, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa. A medida busca retirar de circulação os veículos mais antigos e poluentes, alinhando a política industrial a compromissos climáticos — embora o Brasil ainda não tenha metas tão rígidas quanto a União Europeia, que planeja banir caminhões a diesel até 2040.

O programa foi viabilizado por duas Medidas Provisórias (MPs) assinadas por Lula. A primeira autoriza a União a aportar até R$ 2 bilhões no Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), que funciona como um “fiador” para micro, pequenas e médias empresas obterem crédito. A segunda cria um Crédito Extraordinário de R$ 17 bilhões para cobrir os aportes no FGI, no Move Brasil e no Fundo Garantidor de Operações de Comércio Exterior (FGCE). Crédito Extraordinário é um mecanismo que permite ao governo gastar fora do teto orçamentário em situações excepcionais — neste caso, para viabilizar a política industrial.

📊 Número do Dia

R$ 21,2 bilhões — Volume total de crédito disponibilizado na segunda fase do Move Brasil, mais que o dobro da primeira etapa

Por que isso importa

A renovação da frota de caminhões impacta diretamente o bolso do cidadão: veículos mais eficientes reduzem o custo do frete, que representa parcela significativa do preço final de alimentos e produtos. Para o caminhoneiro autônomo, as novas condições de financiamento — juros menores e prazo maior — podem viabilizar a troca de um veículo velho por um novo, aumentando a renda líquida e a segurança no trabalho. Para a indústria automotiva, o programa representa fôlego de demanda num setor que vinha enfrentando queda nas vendas. E para o investidor, sinaliza aposta do governo em política industrial ativa, com impacto fiscal relevante — os R$ 17 bilhões em Crédito Extraordinário pressionam as contas públicas, mas podem gerar retorno em forma de maior eficiência logística e arrecadação futura.


Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/governo-melhora-condicoes-e-dobra-credito-para-compra-de-caminhoes

Foto de Vitor Ribeiro

Vitor Ribeiro

Jornalista especializado em comércio internacional e economia global. Cobre as exportações brasileiras, o agronegócio e as relações comerciais do Brasil com o mundo. No Correio Capital, assina as seções Comércio Global e Brasil no Mundo.
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