Os dados foram informados pelo Banco Central e reportados pela Agência Brasil. O déficit primário mede a diferença entre receitas e despesas do setor público sem contar o pagamento de juros da dívida. É, portanto, o indicador que mostra o esforço fiscal propriamente dito: aquilo que o governo controla diretamente por meio de arrecadação e gasto.
O que os números de agosto mostram
O déficit primário do setor público consolidado (União, estados, municípios e estatais) foi de R$ 10 bilhões, contra R$ 17,3 bilhões em agosto de 2025. A composição é reveladora: o Governo Central respondeu por déficit de R$ 14,7 bilhões, enquanto os governos regionais tiveram superávit de R$ 2,7 bilhões e as estatais, resultado positivo de R$ 2 bilhões. Em 12 meses, o déficit primário acumulado é de R$ 82,1 bilhões, ou 0,62% do PIB, 0,06 ponto percentual abaixo do registrado no primeiro semestre.
Por que os juros mudam a conversa
A melhora no primário não se traduziu em melhora no resultado final. Os juros nominais somaram R$ 105,9 bilhões em agosto, contra R$ 74,3 bilhões um ano antes. Segundo o Banco Central, parte desse salto vem da piora nas operações de swap cambial, que passaram de ganho de R$ 19,9 bilhões em agosto de 2025 para perda de R$ 9,3 bilhões neste ano. Em 12 meses, a conta de juros chega a R$ 1,182 trilhão, ou 8,86% do PIB.
O resultado nominal, que inclui os juros, foi deficitário em R$ 115,9 bilhões no mês e em R$ 1,264 trilhão em 12 meses, equivalentes a 9,48% do PIB, alta de 0,12 ponto percentual sobre o mês anterior.
A aritmética da dívida
A Dívida Líquida do Setor Público alcançou R$ 9,2 trilhões, ou 69,3% do PIB, com avanço de 0,1 ponto percentual no mês. A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 11,1 trilhões, 82,9% do PIB, 0,3 ponto acima de julho. No acumulado do ano, a dívida bruta subiu 4,2 pontos percentuais do PIB. O Banco Central atribui o avanço mensal principalmente à incorporação dos juros nominais e a efeitos da variação cambial.
Aqui está o mecanismo central: quando o superávit primário é insuficiente para cobrir a despesa com juros, a dívida cresce por inércia, mesmo sem novos gastos discricionários. É a matemática dos juros compostos aplicada ao Estado. Com déficit primário de 0,62% do PIB e juros de 8,86% do PIB, a trajetória de endividamento depende crucialmente de crescimento nominal da economia e da taxa de juros praticada, variáveis que o material do Banco Central não detalha para os meses seguintes.
O que observar adiante
Dados de um único mês são voláteis e sofrem influência de sazonalidade e de fatores não recorrentes, como o resultado dos swaps cambiais. A melhora no primário de agosto é factual, mas o indicador relevante para a solvência de longo prazo é a relação entre dívida e PIB, que segue em alta no ano.
📊 Número do Dia
R$ 1,182 trilhão — Despesas com juros nominais do setor público nos 12 meses encerrados em agosto, equivalentes a 8,86% do PIB, segundo o Banco Central.
Por que isso importa
Uma redução no déficit primário perde relevância prática quando a conta de juros cresce mais rápido. Como a dívida bruta subiu 4,2 pontos percentuais do PIB no ano, o Estado precisa captar recursos crescentes no mercado, o que tende a competir com o crédito privado e a pressionar o custo de financiamento de empresas e famílias.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/contas-publicas-tem-deficit-de-r-10-bilhoes-em-agosto
