A comparação ganhou espaço depois que os candidatos à Presidência discutiram alimentação no debate da TV Bandeirantes de domingo (18). Os números apresentados pela coluna Vaivém das Commodities, da Folha de S.Paulo, registram aumentos menores no segundo período, mas não uma reversão do encarecimento. Inflação menor significa que os preços sobem mais devagar, não que voltaram ao patamar anterior.
Há uma diferença importante na comparação: o intervalo do governo Bolsonaro abrange quatro anos completos; o do governo Lula termina em setembro de 2026. A coluna projeta que a alta acumulada neste último possa chegar a 23,7% até dezembro, se o ritmo de aumento se mantiver. Esse percentual é uma projeção, não um resultado observado. Os dados também se referem à capital paulista, não ao conjunto do Brasil.
Como a demanda externa chega ao supermercado
A reportagem aponta pressões internacionais nos dois governos, com conflitos afetando custos de produção, fretes, insumos e oferta de alimentos. A carne bovina ilustra outro caminho dessa transmissão: segundo a coluna, a demanda internacional pelo produto brasileiro contribuiu para elevar os preços externos e internos em ambos os períodos.
O mecanismo envolve a disputa pelo mesmo produto. Se vender ao exterior se torna mais atraente, os compradores domésticos podem precisar oferecer preços maiores para competir pela oferta disponível. Para o produtor, isso pode representar receita adicional; para o consumidor brasileiro, pressão sobre o orçamento. O resultado depende também da capacidade de ampliar a produção.
Nos números citados pela Folha, a carne bovina encareceu 67% entre 2019 e 2022 e 27% entre 2023 e setembro de 2026. A diferença mostra que uma pressão semelhante pode conviver com intensidades distintas de aumento. Não permite, por si só, separar a contribuição das políticas de cada governo da influência das condições externas.
O alívio depende também da renda
A média dos alimentos tampouco descreve todas as compras. No período de Lula analisado, o café subiu 48% e o leite longa vida, 24%. Famílias que destinam parcelas diferentes do orçamento a esses produtos podem sentir pressões distintas.
Uma desaceleração ajuda a conter novos aumentos, mas não recompõe automaticamente o que o consumidor consegue comprar. Para recuperar poder de compra diante de alimentos ainda mais caros, a renda precisa avançar mais que os preços. Essa é a diferença entre aliviar a inflação e aliviar efetivamente o orçamento.
📊 Número do Dia
16,7% : Alta acumulada dos preços dos alimentos na cidade de São Paulo entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, segundo dados da Fipe citados pela Folha.
Por que isso importa
A alta menor dos alimentos reduz o ritmo de pressão sobre o orçamento, mas não desfaz os aumentos anteriores. A recuperação do poder de compra depende também da evolução da renda.
