Dez anos depois da Rio 2016, o Porto Maravilha se consolidou como uma das principais áreas de cultura e negócios da cidade, enquanto a Baía de Guanabara segue como símbolo de promessa não cumprida. A revitalização da Região Portuária avançou com museus, eventos e novos empreendimentos; já a despoluição das águas, anunciada como compromisso olímpico, ganhou novos prazos e depende de investimentos bilionários em saneamento básico (a infraestrutura que coleta e trata o esgoto das cidades).
A transformação do Porto começou em 2013, quando o elevado da Perimetral foi demolido e as ruas próximas foram reurbanizadas. O projeto Porto Maravilha custou cerca de R$ 10 bilhões e foi viabilizado por um mecanismo chamado operação urbana consorciada — uma espécie de troca em que construtoras compram o direito de erguer prédios mais altos e esse dinheiro financia a recuperação da área degradada. Funciona como um fundo de investimento imobiliário, mas voltado para revitalização urbana.
Museus e movimento
Desde 2015, foram inaugurados o Museu do Amanhã — que já recebeu mais de 7 milhões de visitantes —, o Museu de Arte do Rio (2013) e o AquaRio (2016). Cerca de 3,4 mil apartamentos já foram entregues na região, e antigos armazéns viraram espaços para feiras e eventos como a Rio Innovation Week. A diretora Tuca Moraes, cuja companhia teatral funciona no Armazém da Utopia desde 2010, destaca que a região tinha um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH — indicador que mede qualidade de vida combinando renda, educação e saúde) da cidade antes das obras.
Segundo Gaetano Lops, responsável pela programação paralela à Olimpíada, apenas no Porto Maravilha o público chegou a 4,5 milhões de pessoas durante os Jogos — quase o dobro dos 2,5 milhões registrados em Paris 2024. A título de comparação, a revitalização portuária do Rio segue modelo semelhante ao de Barcelona após as Olimpíadas de 1992, quando a cidade espanhola transformou sua orla industrial em área turística e residencial.
Baía de Guanabara: promessa adiada
Na campanha para sediar a Olimpíada, o Rio prometeu despoluir a Baía de Guanabara — compromisso que não se cumpriu. Até 2016, já haviam sido gastos 800 milhões de dólares (cerca de R$ 4,1 bilhões) em planos de saneamento com recursos de empréstimos internacionais, sem resolver o problema. Durante os Jogos, as regatas de vela aconteceram em meio à poluição, com embarcações recolhendo lixo próximo às raias para evitar que se prendesse aos barcos.
A nova esperança vem da concessionária Águas do Rio, que venceu em 2021 o leilão para assumir a infraestrutura de esgoto da Região Metropolitana. A empresa promete investir R$ 19 bilhões até 2033 para tratar 90% do esgoto da região — sendo R$ 2,7 bilhões em galerias de cintura, tubulações que captam o esgoto despejado irregularmente na rede de águas pluviais (que deveria levar apenas água da chuva). É como se a cidade tivesse dois sistemas de encanamento: um para chuva e outro para esgoto, mas muitas casas jogam esgoto no cano errado.
Segundo Anselmo Leal, diretor-presidente da Águas do Rio, intervenções já fizeram com que 134 milhões de litros de esgoto por dia — o equivalente a 53 piscinas olímpicas de água contaminada — deixassem de cair na baía. Um dos problemas históricos foi que estações de tratamento foram construídas, mas não operavam com capacidade plena porque faltavam conexões da rede com as residências. Imagine construir um hospital sem estradas para chegar até ele.
Algumas melhorias já aparecem: as praias da Glória, do Flamengo e de Botafogo apresentaram melhora nas condições de balneabilidade (quando a água está limpa o suficiente para banho) após a limpeza do interceptor oceânico — um grande cano que capta esgoto da Zona Sul e o leva até o mar aberto. Ele não era limpo desde sua implantação, há mais de 50 anos, e a Águas do Rio retirou 3 mil toneladas de resíduos.
📊 Número do Dia
R$ 19 bilhões , Investimento prometido até 2033 para despoluir a Baía de Guanabara e tratar 90% do esgoto da Região Metropolitana do Rio
Por que isso importa
Para o cidadão carioca, a diferença é clara: enquanto o Porto Maravilha oferece lazer, cultura e valorização imobiliária, a Baía de Guanabara segue imprópria para banho na maior parte de sua extensão. Para investidores, a região portuária se consolidou como aposta segura, com ocupação crescente de imóveis e espaços comerciais. Já a despoluição da baía depende do cumprimento de metas pela concessionária — se bem-sucedida, pode abrir novas frentes de turismo e valorização de áreas hoje degradadas. A lição é que legados olímpicos dependem menos de eventos esportivos e mais de compromissos financeiros e políticos de longo prazo.


