O Banco da Itália publicou estudo em 31 de julho de 2025 que desafia uma das principais promessas do mercado cripto: a de que stablecoins tornariam remessas internacionais mais baratas e rápidas. Segundo a Cointelegraph, os pesquisadores descobriram que os custos de conversão entre moedas fiduciárias (reais, dólares, euros) e a infraestrutura de pagamento tradicional, e não as taxas da blockchain (a tecnologia de registro público que sustenta as criptomoedas), respondem pela maior parte das diferenças nos custos e tempos de liquidação das remessas feitas com stablecoins.
Para contextualizar: stablecoins são criptomoedas projetadas para manter valor estável, geralmente atreladas ao dólar. A promessa de mercado era que, ao eliminar intermediários bancários, essas moedas digitais reduziriam custos de envio de dinheiro entre países. O estudo italiano, porém, mostra que o gargalo não está na tecnologia blockchain em si, mas nas pontas do processo: converter real em stablecoin, transferir pela rede e reconverter em moeda local no destino. Essas etapas ainda dependem de infraestrutura bancária tradicional e de taxas de câmbio, que variam conforme o país e o provedor.
Segundo conhecimento de mercado, o Brasil é um dos maiores receptores de remessas da América Latina, com fluxo anual superior a US$ 5 bilhões (dados do Banco Mundial). Para o investidor ou usuário brasileiro, o estudo reforça que a escolha do canal de remessa deve considerar não apenas a tecnologia usada, mas principalmente as taxas de conversão e a infraestrutura local de entrada e saída. Plataformas que operam com stablecoins no Brasil, como algumas corretoras cripto, ainda cobram spreads (diferença entre preço de compra e venda) que podem anular a economia prometida pela blockchain.
A título de comparação, enviar R$ 1.000 por transferência bancária internacional tradicional pode custar entre 1% e 3% em taxas, dependendo do banco. Usar stablecoins pode reduzir a taxa da blockchain para centavos de dólar, mas se a conversão real/stablecoin custar 2% na entrada e 2% na saída, o custo total pode superar o método tradicional. O estudo do Banco da Itália sugere que, até que a infraestrutura de conversão amadureça, stablecoins não são automaticamente mais baratas para remessas.
Impacto para regulação e Drex
O achado italiano ganha relevância no contexto do Drex, a moeda digital do Banco Central do Brasil, que está em fase piloto. Diferentemente de stablecoins privadas, o Drex seria emitido diretamente pelo BC e poderia, em tese, eliminar parte dos custos de conversão ao operar dentro do sistema financeiro nacional. Segundo dados públicos do Banco Central, o Drex pretende facilitar pagamentos programáveis e reduzir fricções em transações financeiras, mas ainda não há cronograma definitivo de lançamento para o público geral.
Para o ecossistema cripto brasileiro, o estudo serve de alerta: a tecnologia blockchain resolve apenas parte do problema de custos em remessas. A infraestrutura de entrada e saída, regulação local e liquidez das stablecoins em reais continuam sendo os fatores determinantes para viabilidade econômica. Historicamente, inovações financeiras que prometem custos menores só se consolidam quando toda a cadeia de valor se adapta, não apenas a camada tecnológica.
📊 Número do Dia
Maior parte dos custos , Conversão entre moedas fiduciárias e infraestrutura tradicional, não taxas de blockchain, respondem pela maior parte dos custos em remessas com stablecoins, segundo Banco da Itália.
Por que isso importa
O estudo desafia a narrativa de que stablecoins são automaticamente mais baratas para remessas internacionais. Para o investidor brasileiro, isso significa que a escolha do canal de envio de dinheiro ao exterior deve considerar não só a tecnologia, mas principalmente as taxas de conversão e a infraestrutura local. Para o Banco Central, reforça a importância de desenhar o Drex de forma a reduzir fricções em toda a cadeia, não apenas na camada de registro.


