O setor financeiro brasileiro pode estar às vésperas de uma mudança radical na relação entre consumidores e instituições. Segundo Linconl Rocha, especialista em meios de pagamento e presidente da Pagos, a inteligência artificial deixará de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar a principal intermediária entre pessoas e bancos. Na prática, isso significa que você não precisará mais abrir aplicativos bancários ou comparar taxas de juros — um agente de IA fará isso por você, buscando as melhores condições no mercado automaticamente.
O conceito, batizado de M.AI.Bundling (sigla em inglês para “Meu Pacote de IA”), representa a quarta grande fase da evolução financeira. Primeiro vieram os bancos tradicionais, que concentravam todos os serviços; depois as fintechs especializadas, que separaram esses serviços; em seguida os superapps, que tentaram reunir tudo novamente. Agora, a IA promete montar pacotes financeiros personalizados para cada consumidor, funcionando como um assistente pessoal que negocia em seu favor — imagine ter um corretor financeiro trabalhando 24 horas por dia exclusivamente para você, mas sem cobrar nada por isso.
Infraestrutura pronta no Brasil
O Brasil já possui as bases regulatórias necessárias para essa transformação. O Open Finance, implementado pelo Banco Central a partir de 2021, permite que diferentes instituições financeiras compartilhem dados de forma segura e padronizada. Isso significa que uma IA pode acessar informações de vários bancos simultaneamente para comparar produtos — algo como ter todas as suas contas bancárias conversando entre si para encontrar a melhor oferta de crédito ou investimento.
Os números mostram que o terreno está fértil. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o setor de pagamentos deve ultrapassar R$ 5 trilhões em transações em 2026, crescendo entre 9,5% e 11,5% em relação a 2025. Mais revelador ainda: o pagamento por aproximação (aquele em que você apenas encosta o cartão ou celular na maquininha) saltou de 3,9% das compras presenciais em setembro de 2020 para 72,8% em setembro de 2025. Essa velocidade de adoção mostra que brasileiros assimilam novas tecnologias financeiras rapidamente.
Comparação internacional
O movimento não é exclusivamente brasileiro. Segundo relatório da NVIDIA citado pela Finsiders Brasil, baseado em pesquisa com cerca de 600 profissionais do setor financeiro em diversos países, a inteligência artificial já gera resultados mensuráveis para instituições financeiras globalmente, incluindo aumento de receitas e redução de custos operacionais. A título de comparação, enquanto o Brasil avança no Open Finance, a União Europeia implementa regulação similar chamada PSD2 desde 2018, e os Estados Unidos discutem regras para compartilhamento de dados financeiros — o Brasil está, portanto, alinhado com tendências globais.
O desafio da confiança
A principal questão, segundo Rocha, não é técnica, mas de governança: para quem a IA trabalha? “Se a inteligência artificial passa a decidir em nome do cliente, surge uma pergunta inevitável: ela trabalha para o consumidor ou para quem a desenvolveu?”, questiona o especialista. É como contratar um corretor de imóveis: você precisa ter certeza de que ele está buscando o melhor apartamento para você, não o que paga a maior comissão para ele.
Rocha compara o ceticismo atual com a desconfiança que existia há dez anos sobre compartilhar dados financeiros com plataformas digitais — algo que hoje é rotina para milhões de brasileiros. “Paradigmas envelhecem muito mais rápido do que imaginamos”, afirma. Segundo ele, a disputa futura não será pela atenção do consumidor, mas pela preferência do seu agente inteligente. “O banco do futuro talvez seja aquele que o cliente nunca verá”, conclui.
📊 Número do Dia
72,8% , das compras presenciais no Brasil já são feitas por aproximação, contra apenas 3,9% em 2020 — evidência da velocidade com que brasileiros adotam novas tecnologias financeiras
Por que isso importa
Para o cidadão, essa mudança pode significar acesso automático às melhores condições de crédito, investimentos e serviços financeiros, sem precisar pesquisar ou negociar. Para empresas do setor financeiro, representa uma reviravolta: em vez de disputar a atenção do cliente, precisarão competir para serem escolhidas por agentes de IA. E para investidores, sinaliza que o valor futuro de bancos e fintechs dependerá menos de aplicativos bonitos e mais da capacidade de oferecer as melhores condições em negociações automatizadas nos bastidores.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2026/06/19/ia-inaugura-nova-era-nos-pagamentos-avalia-especialista-1.ghtml


