O Irã quer transformar o fundo do mar em fonte de receita. Depois de cobrar pedágio de navios que cruzam o Estreito de Ormuz (a passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao oceano), Teerã agora mira os cabos submarinos de internet que passam pela região. A proposta surgiu em artigos publicados por agências de notícias ligadas à Guarda Revolucionária iraniana, a Tasnim e a Fars, e prevê três etapas: cobrança pelo uso do leito marinho, obrigação de empresas de tecnologia seguirem leis iranianas e monopólio iraniano sobre reparos.
Os cabos submarinos são a espinha dorsal da internet global. Essas estruturas, que parecem mangueiras grossas no fundo do mar, transportam 95% de todo o tráfego de internet do mundo — incluindo transações bancárias, videochamadas, e-mails e acesso a serviços em nuvem como Google Drive e Netflix. Segundo a Telegeography, centro de pesquisa do setor, existem 570 cabos operacionais no mundo, e cada um custa entre US$ 300 milhões e US$ 1 bilhão para ser instalado. Dois desses cabos passam pelo Irã: o Falcon e o Gulf Bridge International (GBI).
A justificativa iraniana se baseia na Convenção da ONU sobre a Lei do Mar, de 1982, que dá aos países costeiros o direito de decidir sobre o que passa por seu leito marinho. Mas há uma contradição: a mesma convenção prevê livre trânsito para infraestrutura já existente, como explicou Irini Papanicolopulu, professora de direito internacional da Universidade de Londres, à CNN. O Irã assinou a convenção, mas nunca a ratificou — ou seja, não a tornou lei interna.
O precedente egípcio e a diferença crucial
O Irã cita o Egito como exemplo de país que cobra pela passagem de cabos submarinos. O Cairo recebe centenas de milhões de dólares por ano para permitir que cabos transitem pelo Canal de Suez, a via artificial que conecta o Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Mas especialistas apontam uma diferença fundamental: o Canal de Suez foi construído pelo Egito em seu território. O Estreito de Ormuz, por outro lado, é uma passagem natural, regida por regras internacionais que garantem livre navegação.
A título de comparação, imagine que o Brasil decidisse cobrar pedágio de todos os aviões que cruzam seu espaço aéreo — tecnicamente possível, mas contrário às normas internacionais de aviação. A proposta iraniana funciona de forma similar: usa a soberania territorial para criar uma taxa onde antes havia livre passagem.
Vulnerabilidade como arma
A francesa Alcatel, gigante do setor de telecomunicações, suspendeu em março todas as atividades de manutenção de cabos no Golfo Pérsico, citando ameaças de segurança devido à guerra. A análise da empresa Windward, especializada no setor marítimo, é direta: o objetivo iraniano não é cortar os cabos, mas manter a infraestrutura de reparos como refém. As operadoras enfrentam uma escolha: pagar as taxas iranianas ou aceitar que futuras falhas permaneçam sem reparo indefinidamente.
Interrupções nos cabos submarinos causam prejuízos bilionários. Em 2024 e 2025, danos a cabos no Mar Vermelho afetaram usuários no Oriente Médio e Sul da Ásia. No Mar Báltico, 11 incidentes desde 2022 foram atribuídos a embarcações russas, embora Moscou negue. Uma ação iraniana em massa contra os cabos impactaria a indústria de petróleo, o sistema bancário e o acesso à internet em partes da Ásia, Europa e África. A Índia, por exemplo, perderia bilhões com a restrição de acesso à internet em sua indústria de serviços terceirizados — o setor que emprega milhões de indianos atendendo clientes de empresas estrangeiras.
Comparação internacional
Diferentemente do Egito, que cobra por uma via artificial que construiu, o Irã tenta monetizar uma passagem natural. É como se o Panamá, que cobra pedágio pelo Canal do Panamá (também artificial), decidisse cobrar também pelo oceano ao redor. A diferença jurídica é crucial: canais artificiais são propriedade do país que os construiu; estreitos naturais são regidos por tratados internacionais que garantem livre passagem.
📊 Número do Dia
95% , Percentual do tráfego global de internet transportado por cabos submarinos, a infraestrutura que o Irã quer taxar
Por que isso importa
Para o cidadão brasileiro, uma interrupção nos cabos do Golfo Pérsico pode significar lentidão na internet, falhas em aplicativos bancários e problemas em serviços como Netflix e WhatsApp — tudo que depende de servidores internacionais. Para empresas, especialmente as de tecnologia e comércio exterior, representa risco de bilhões em prejuízos e a necessidade de rotas alternativas mais caras. Para investidores, sinaliza um novo tipo de risco geopolítico: a infraestrutura digital como arma de negociação, algo inédito nas relações internacionais.


