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quinta-feira, 13 de agosto de 2026 Brasil

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A diplomacia das rochas: por que a embaixada virou vitrine antes da KBIS 2027

Convidados durante o Brazil Stone Experience – Washington DC Edition, ação de abertura da agenda do setor brasileiro de rochas naturais rumo à KBIS 2027, realizada na residência oficial da Embaixada do Brasil em Washington
Convidados do Brazil Stone Experience na residência oficial da Embaixada do Brasil em Washington, em maio de 2026

Em jantar com mais de trinta arquitetos americanos, setor brasileiro de rochas naturais inaugura agenda rumo à principal feira norte-americana do segmento — após exportar US$ 795 milhões aos Estados Unidos em 2025, apesar de tarifas que chegaram a 50%.

Na noite de 6 de maio, a residência oficial da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, em Washington, foi transformada em vitrine de granito. O movimento responde a uma estatística que o setor brasileiro não quer perder de vista: em 2025, mesmo sob tarifas alfandegárias americanas que chegaram a 50%, o Brasil exportou US$ 795 milhões em rochas naturais aos Estados Unidos — 53,6% de tudo o que produziu para o mercado externo, e 11,8% a mais do que em 2024, segundo a Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas).

O evento, batizado de “Brazil Stone Experience – Washington DC Edition”, reuniu mais de trinta arquitetos, designers e profissionais da construção civil americana, e inaugurou a agenda internacional do setor rumo à KBIS 2027 — a principal feira norte-americana dos segmentos de cozinhas, banheiros e design de interiores, prevista para 2 a 4 de fevereiro de 2027 em Las Vegas. Foi promovido pela Centrorochas e pela ApexBrasil, por meio do projeto setorial It’s Natural – Brazilian Natural Stone.

US$ 795 milhões
foi quanto o Brasil exportou em rochas naturais aos Estados Unidos em 2025 — apesar de tarifas que chegaram a 50%

Um ano que era para ser catastrófico

O número de US$ 795 milhões para os Estados Unidos impressiona porque foi alcançado num ano que, no papel, deveria ter sido devastador para o setor. As tarifas adicionais anunciadas em julho de 2025 chegaram a 50% sobre alguns produtos brasileiros, atingindo diretamente granitos e mármores. Os efeitos foram visíveis: queda de 8,7% no volume de granitos exportados e de 7,5% nos mármores, segundo dados da Centrorochas. O presidente da entidade, Tales Machado, estima que, sem o tarifaço, o setor teria fechado o ano próximo de US$ 1,6 bilhão — em vez dos US$ 1,48 bilhão efetivamente registrados, ainda assim um recorde histórico que supera o pico anterior, de 2021.

O que sustentou o resultado foi uma combinação de três fatores: avanço dos quartzitos, beneficiados por exceção tarifária e em forte demanda; valorização do preço médio de exportação (+14,2% sobre 2024); e diversificação de mercados, com a China subindo a US$ 260,1 milhões (+19%) e a Itália surpreendendo com US$ 117,7 milhões (+42,2%). É a primeira vez que o setor demonstra, com números, que pode absorver um choque tarifário americano sem perder dinâmica — desde que tenha alternativas geográficas em movimento.

O cálculo de Washington

A escolha da embaixada como ponto de partida da agenda KBIS 2027 não é decorativa. O mercado americano de cozinhas e banheiros é avaliado em US$ 235 bilhões, e a KBIS, junto ao International Builders’ Show, reuniu mais de 117 mil profissionais em sua edição de 2026. Para o setor brasileiro, presença na feira não é novidade — empresas exportadoras frequentam o evento há anos. O que mudou é o grau de articulação institucional em torno dela.

A delegação que desembarcou em Washington trouxe o vice-presidente da Centrorochas, Fábio Cruz, o gerente do projeto setorial Thiago Fukuda, a head de comunicação institucional Karina Porto-Firme e duas empresas exportadoras — Milanezi Granitos e Santo Antonio Stones. A embaixada ofereceu o espaço institucional mais nobre da capital americana. A leitura, traduzida em ação, é a de que a relação com o principal mercado do setor não pode mais depender apenas de feiras e canais tradicionais: precisa de presença diplomática contínua e de especificação técnica nos projetos americanos de alto padrão, onde a margem absorve oscilações tarifárias e a origem brasileira passa a operar como marca, não como simples ponto de extração.

A engenharia do evento seguiu um manual conhecido: cocktail em ambiente premium, apresentação executiva, networking informal e um sorteio aspiracional. A vencedora, Sarah Wilson, da Chansaerae Design Firm, ganhou imersão completa na cadeia produtiva brasileira durante a Cachoeiro Stone Fair 2026, em agosto, em Cachoeiro de Itapemirim. O Espírito Santo, vale lembrar, concentra 78,5% das exportações brasileiras do setor.

A meta dos US$ 3 bilhões

O pano de fundo da agenda diplomática é uma meta formalizada pelo setor em fevereiro deste ano, em cerimônia no Congresso Nacional: US$ 3 bilhões em exportações até 2030 — praticamente o dobro do faturamento atual em cinco anos. A equação inclui diversificação geográfica, com destaque para o Brazilian Natural Stone Hub no Oriente Médio (parceria assinada em 2025 com o Porto de Abu Dhabi), modernização logística e, sobretudo, reposicionamento na cadeia de valor americana.

Aqui mora a aposta. O Brasil é tradicionalmente forte no fornecimento de blocos brutos e chapas semi-acabadas — produtos commodity onde compete diretamente com Índia, Turquia, China e Itália. A estratégia da especificação, voltada a arquitetos e designers, busca empurrar as rochas brasileiras um degrau acima na cadeia: para projetos residenciais e comerciais de alto padrão, onde a sensibilidade tarifária é menor e a marca-país pesa mais.

A pergunta que fica é se o playbook é transferível. Cafés especiais e cachaças premium demonstraram, na última década, que produtos brasileiros podem subir na hierarquia de valor americana — mas o fizeram em segmentos B2C, com ciclos de compra curtos e relação direta com o consumidor final. Rochas naturais operam em outra lógica: ciclo de especificação de meses a anos, intermediação obrigatória de arquitetos e fabricantes, sensibilidade a frete e tarifas em cada elo da cadeia. Convencer trinta designers numa noite em Washington é um exercício diplomático bem-sucedido. Convertê-los em especificadores recorrentes ao longo dos vinte meses que separam o setor da KBIS 2027 é outro tipo de trabalho — e é nele que a meta dos US$ 3 bilhões será ganha ou perdida.

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Fontes consultadas: Comunicado oficial Centrorochas / ApexBrasil – It’s Natural – Brazilian Natural Stone (10 mai. 2026); dados anuais de exportação da Centrorochas (jan. 2026); ApexBrasil; Agência Congresso (fev. 2026); NKBA / KBIS; ANBA – Agência de Notícias Brasil-Árabe.