A Coffee Lab, empresa paulistana com duas unidades e mais de 30 funcionários, trocou a escala tradicional de cinco dias de trabalho por semana (5×2) pela jornada de quatro dias (4×3) em meados de 2024. O resultado surpreendeu: segundo a fundadora Isabela Raposeiras, o faturamento cresceu 35% em 2025, enquanto o setor de alimentação como um todo encolheu 22% no mesmo período, conforme dados da Agência Brasil.
A mudança reduziu a carga horária semanal de 44 para 40 horas — o equivalente a 10 horas diárias em quatro dias, com três folgas semanais, sendo duas consecutivas. A aposta foi na produtividade (quanto cada funcionário produz por hora trabalhada) em vez do volume bruto de horas. “A galera está mais descansada. No ramo de alimentação, a concentração é muito importante para vender mais”, explicou a empresária.
Menos rotatividade, mais lucro
Além do salto no faturamento, a Coffee Lab viu sua taxa de rotatividade de funcionários (o chamado turnover, que mede quantos empregados saem da empresa num período) cair para 8% — patamar considerado baixo no setor de serviços brasileiro, onde a média supera 30% ao ano, segundo dados públicos do Ministério do Trabalho. Com menos demissões, a empresa economizou em rescisões contratuais e reduziu a necessidade de contratar trabalhadores temporários (freelancers), que custam mais e conhecem menos o negócio.
A funcionária Tábata Lima de Oliveira, de 35 anos, relatou que na escala anterior (6×1, seis dias de trabalho para um de folga) usava o único dia livre apenas para dormir e recuperar forças. “Praticamente, eu dormia o meu dia inteiro. Não conseguia sair, raramente tinha disposição para estudar”, contou à Agência Brasil. Hoje, com três folgas semanais, ela consegue viajar, estudar e cuidar da saúde mental — problemas que a levaram a desenvolver síndrome de burnout (esgotamento profissional) em empregos anteriores.
O debate global sobre jornada reduzida
A experiência brasileira ecoa tendências internacionais: em Portugal, 41 empresas adotaram a escala 4×3 em programa-piloto, e na Europa diversos países testam jornadas menores sem redução de salários. Estudos na Islândia e no Reino Unido mostraram que a semana de quatro dias manteve ou aumentou a produtividade, sem impacto negativo no PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo que um país produz). A título de comparação, a França adotou a semana de 35 horas em 2000 e mantém uma das maiores produtividades por hora trabalhada da Europa, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
No Brasil, o debate ganhou força com a proposta de emenda constitucional (PEC) que pretende acabar com a escala 6×1, hoje permitida pela legislação trabalhista. A experiência da Coffee Lab sugere que a redução de jornada pode ser viável economicamente — desde que acompanhada de reorganização do trabalho e foco em resultados, não apenas em horas cumpridas.
É como se a empresa trocasse o modelo de “alugar” o funcionário por mais tempo pelo modelo de “comprar” mais atenção e energia nas horas em que ele está presente. O resultado: menos cansaço, menos erros, mais vendas.
📊 Número do Dia
35% — Foi o aumento no faturamento da Coffee Lab em 2025, após adotar a escala 4×3, enquanto o setor de alimentação brasileiro recuou 22%
Por que isso importa
Para o empresário, o caso mostra que reduzir jornada pode aumentar lucros, não apenas custos — desde que a mudança venha acompanhada de reorganização do trabalho. Para o trabalhador, significa mais tempo livre sem perda de renda, com impacto direto na saúde mental e qualidade de vida. Para o país, o experimento alimenta o debate sobre a PEC do fim da escala 6×1, sugerindo que jornadas menores podem ser economicamente viáveis e até vantajosas, contrariando o argumento de que “menos horas = menos produção”.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/escola-adota-escala-de-trabalho-4×3-e-aumenta-faturamento-em-35












