No segundo trimestre de 2026, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 58% dos lançamentos e 51% das vendas de imóveis novos, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em dados publicados pela Folha de S.Paulo. Nos lançamentos, foi a maior participação da série iniciada em 2019. Esse peso torna a capacidade de pagamento dos compradores relevante também para o ritmo de atividade das incorporadoras.
A entrada vira uma segunda dívida
O mecanismo conhecido como pró-soluto permite parcelar com a incorporadora a parte do preço não coberta pelo financiamento bancário, geralmente entre 20% e 30% do imóvel. Para famílias sem reserva suficiente, a modalidade reduz a necessidade de acumular dinheiro antes da compra. Mas não reduz o valor devido: transforma a entrada em mais um compromisso de pagamento.
As duas dívidas têm proteções diferentes. O banco conta com a alienação fiduciária, mecanismo pelo qual o próprio imóvel garante o financiamento. Como essa garantia já está vinculada ao crédito bancário, o saldo financiado pela incorporadora não tem garantia real. A empresa assume integralmente o risco de não receber essa parcela complementar.
Segundo estimativas da Liquid, empresa de crédito imobiliário citada pela Folha, o pró-soluto no programa movimenta entre R$ 8 bilhões e R$ 15 bilhões por ano e mantém uma carteira ativa de cerca de R$ 25 bilhões. São valores a receber, não perdas já registradas.
Depois das chaves, o risco permanece
A fase mais sensível ocorre quando o comprador já recebeu o apartamento, mas continua pagando a entrada. Segundo Thiago Yaak, presidente da Liquid, a inadimplência nessa etapa pode ser de cinco a dez vezes a do financiamento imobiliário bancário tradicional, dependendo da renda e da modalidade. A comparação é uma avaliação da empresa, não uma taxa uniforme para todos os contratos.
Para a incorporadora, vender e receber são etapas distintas. O parcelamento ajuda a fechar negócios; se os pagamentos atrasam, porém, o dinheiro previsto deixa de entrar no prazo. Isso pode pressionar os recursos disponíveis para tocar obras e assumir novos projetos, mesmo quando as vendas avançam.
A CBIC informou à Folha que prepara um estudo técnico sobre o problema. A tensão econômica está na própria estratégia de expansão: facilitar a entrada pode ampliar o acesso à moradia, mas a continuidade desse crescimento depende de as parcelas contratadas se converterem em dinheiro no caixa das empresas.
📊 Número do Dia
58% : Participação do Minha Casa, Minha Vida nos lançamentos de imóveis novos no segundo trimestre de 2026, segundo a CBIC, a maior da série iniciada em 2019.
Por que isso importa
O parcelamento da entrada pode viabilizar a compra da moradia, mas deixa as incorporadoras expostas a uma dívida sem garantia real. Se houver atrasos, o crescimento das vendas pode não se traduzir em recursos disponíveis para novas obras.
