O ponto de partida da avaliação de Salto é uma estimativa de déficit primário de 0,38% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. Isso significa despesas superiores às receitas, antes do pagamento dos juros da dívida. Não é um resultado fechado do ano, mas a projeção do economista para dimensionar o esforço necessário.
Na entrevista à Folha de S.Paulo, ele identifica duas frentes centrais: o crescimento das despesas obrigatórias e as renúncias fiscais, benefícios que reduzem a arrecadação de tributos. Sua proposta é aprovar um conjunto de medidas rapidamente, mas distribuir a execução por quatro anos.
Aprovar agora não significa cortar tudo agora
A diferença entre o calendário da decisão e o da execução é o centro do argumento. Um plano aprovado pode alterar expectativas antes que toda a economia prevista apareça no orçamento. Se os investidores considerarem viáveis as medidas e sua continuidade, podem aceitar juros menores para financiar o governo.
Esse efeito não decorre automaticamente da identidade do presidente eleito. Depende da confiança na capacidade de executar o plano e do apoio parlamentar. Salto afirma que o mercado anteciparia efeitos positivos nos juros caso o Congresso aprovasse um programa consistente. Trata-se de uma avaliação condicional, não de uma queda de juros já assegurada.
O gradualismo, por sua vez, busca evitar que a redução das despesas retire demanda da economia de maneira concentrada. Salto argumenta que um ajuste abrupto poderia provocar recessão. Para famílias e empresas, esse risco envolve menor circulação de renda e enfraquecimento das vendas, caso a retração do gasto público não seja compensada por outras fontes de demanda.
O conteúdo importa mais que trocar a regra
O economista considera possível fazer o ajuste dentro do atual arcabouço fiscal, com mudanças pontuais. Defende reduzir de 2,5% para 1% o limite de crescimento real do gasto, isto é, acima da inflação. Essa é uma proposta sua, não uma alteração aprovada.
A escolha das despesas e dos benefícios tributários atingidos determinará como o esforço será distribuído. Aprovar cedo e executar gradualmente pode conciliar previsibilidade e menor impacto imediato sobre a atividade, desde que as medidas sejam suficientes e cumpridas. Sem essa ligação entre compromisso e execução, o otimismo eleitoral não se transforma, por si só, em controle da dívida.
📊 Número do Dia
0,38% do PIB : Déficit primário estimado por Felipe Salto para 2026, antes das despesas com juros. É uma projeção, não o resultado fechado do ano.
Por que isso importa
Um plano fiscal aprovado pode melhorar as condições de financiamento antes de produzir todos os seus efeitos no orçamento. Mas esse resultado depende de medidas executáveis e apoio parlamentar, não apenas de uma vitória eleitoral.
