O estoque da Dívida Pública Federal (DPF) avançou 0,04% em agosto, passando de R$ 9,289 trilhões em julho para R$ 9,293 trilhões. A estabilidade aparente esconde duas forças opostas: o Tesouro resgatou R$ 84,43 bilhões em títulos a mais do que emitiu, mas a incorporação de R$ 88,39 bilhões em juros ao saldo devedor mais que compensou esse movimento.
Por que a dívida sobe mesmo com resgate líquido
A aritmética é simples e pouco confortável. Incorporar juros significa reconhecer, mês a mês, o custo financeiro que incide sobre o estoque. Quando esse custo supera o volume líquido devolvido aos investidores, a dívida cresce sem que o governo tenha tomado um centavo adicional emprestado. Em agosto, os juros reconhecidos superaram o resgate líquido em cerca de R$ 4 bilhões. O custo médio acumulado em 12 meses subiu de 12,45% para 12,59% ao ano.
A Selic domina a estrutura da dívida
O dado mais revelador do relatório é de composição, não de estoque. Os títulos de taxa flutuante, corrigidos pela Selic, passaram de 51,11% em julho para 52,74% em agosto, o maior nível da série histórica segundo o Tesouro. O Plano Anual de Financiamento de 2026 prevê intervalo entre 49% e 53%, faixa revista para cima no mês anterior, conforme a Agência Brasil. O restante se divide em 23,22% indexados à inflação, 20,31% prefixados e 3,74% cambiais.
A relevância desse arranjo é direta: quanto maior a parcela pós-fixada, mais rapidamente uma alta de juros se transmite ao custo da dívida. Em títulos prefixados, o Tesouro trava a taxa no momento da emissão e absorve o risco; em papéis Selic, o risco é transferido para o contribuinte, que paga a conta em tempo real. O próprio Tesouro afirma esperar reduzir gradualmente essa participação caso o país volte a registrar superávits primários de forma estrutural. A condicional importa: sem resultado fiscal consistente, a demanda por prefixados longos tende a ser mais cara, e o emissor acaba aceitando indexação à Selic para colocar papel.
Prazos melhores, colchão menor
Houve movimentos favoráveis. O prazo médio subiu de 4,05 para 4,10 anos e a parcela com vencimento em até 12 meses caiu de 18,91% para 16,39%, reduzindo a pressão de rolagem no curto prazo. Em contrapartida, a reserva de liquidez, o chamado colchão da dívida, recuou 11,89% em termos nominais, de R$ 1,37 trilhão para R$ 1,208 trilhão. O Tesouro informa que o nível cobre cerca de 7,18 meses de vencimentos.
A participação de estrangeiros na dívida interna subiu de 9,82% para 9,91%, ou R$ 886,3 bilhões. Instituições financeiras seguem como maiores detentoras, com 31,22%.
📊 Número do Dia
52,74% — Parcela da Dívida Pública Federal corrigida pela taxa Selic em agosto de 2026, ante 51,11% em julho, o maior nível da série histórica segundo o Tesouro Nacional.
Por que isso importa
Quanto maior a fatia da dívida atrelada à Selic, mais imediata é a transmissão de qualquer variação de juros para o custo do endividamento público. Com juros incorporados de R$ 88,39 bilhões em um único mês, o estoque cresce mesmo quando o Tesouro resgata mais títulos do que emite, o que reduz o espaço orçamentário disponível para outras despesas.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/divida-publica-federal-fica-estavel-em-agosto-e-chega-r-929-tri
