O mercado financeiro brasileiro nadou contra a maré internacional na quinta-feira, com a Bolsa subindo 1,42% e o dólar recuando para R$ 5,10, mesmo com o petróleo a US$ 107 o barril pressionando a inflação global. Segundo analistas ouvidos por O Globo, o movimento reflete não apenas novas pesquisas eleitorais mostrando disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas também uma virada súbita nas apostas da plataforma Polymarket — um mercado preditivo onde investidores apostam em resultados de eventos reais, como eleições.
Mercados preditivos funcionam como uma espécie de “bolsa de apostas” sobre acontecimentos futuros: investidores compram e vendem contratos que pagam se determinado evento ocorrer. Na quinta-feira, eventos relacionados ao Brasil concentravam US$ 3 milhões em apostas no Polymarket, ficando atrás apenas de jogos da Liga dos Campeões e à frente até das eleições de meio de mandato americanas. A plataforma está proibida de operar no Brasil desde abril, quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) determinou que apostas no mercado de derivativos só podem ter como base produtos com referenciais econômico-financeiros — e não resultados eleitorais ou esportivos.
A retroalimentação entre apostas e mercado
Fernando Siqueira, chefe de pesquisa da Eleven Financial, descreve um ciclo de retroalimentação: “As pesquisas da semana mostram aproximação (entre Lula e Flávio). E há o noticiário de crise no STF, que também não é positivo para Lula. E aí há um aumento nas apostas. Quem faz aposta compra ações e quem vê a aposta melhorando começa a comprar ações também“, explicou ao Globo. É como um efeito dominó: a mudança nas apostas atrai investidores, que compram ações brasileiras, o que por sua vez valoriza a Bolsa e atrai ainda mais capital.
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, o bilionário Elon Musk chegou a afirmar em 2024 que mercados de previsão eram referências melhores do que pesquisas tradicionais de institutos consolidados. A título de comparação, plataformas como Polymarket ganharam notoriedade desde 2008, quando sistemas de apostas previram corretamente a vitória de Barack Obama. A diferença é que nos EUA essas plataformas operam em zona cinzenta regulatória, enquanto no Brasil foram explicitamente proibidas.
Investidor estrangeiro volta ao Brasil
Desde 20 de agosto, investidores externos aportaram R$ 11,1 bilhões no mercado de capitais brasileiro, segundo dados citados pela reportagem. O volume de opções de compra do EWZ — o principal fundo de ações brasileiras negociado em Nova York — saltou 86% em menos de duas semanas, atingindo o maior patamar desde 2007. Isso significa que investidores estrangeiros estão apostando na valorização dos ativos brasileiros em volumes recordes para quase duas décadas.
Frederico Nobre, gestor da Warren, explica que a percepção dominante entre investidores institucionais (aqueles que movimentam grandes volumes) é que um candidato de oposição teria mais chances de melhorar a trajetória da dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo que o país produz). Imagine a dívida pública como o saldo devedor de um cartão de crédito nacional: o mercado aposta que uma alternância de poder poderia reduzir esse endividamento em relação ao tamanho da economia.
A alta do petróleo, que normalmente seria negativa para economias importadoras, beneficia o Brasil por ser exportador de óleo cru. Isso aumenta as receitas do país em dólares e valoriza ações de petroleiras como a Petrobras — um efeito colateral positivo em meio à turbulência global.
📊 Número do Dia
86% , Aumento no volume de opções de compra do principal fundo de ações brasileiras em Nova York em apenas duas semanas, atingindo o maior patamar desde 2007
Por que isso importa
Para o investidor, a influência crescente de plataformas de apostas sobre o mercado tradicional cria volatilidade adicional e oportunidades de curto prazo, mas também riscos de movimentos especulativos descolados de fundamentos econômicos. Para o cidadão, essa dinâmica afeta diretamente o custo de vida: a valorização do real reduz o preço de produtos importados e pode ajudar a conter a inflação, enquanto a alta da Bolsa sinaliza maior confiança na economia — ainda que baseada em expectativas eleitorais que podem ou não se confirmar.


