O Brasil vive um paradoxo econômico às vésperas das eleições: os números oficiais sugerem uma economia em desempenho razoável, mas muitos brasileiros experimentam uma realidade bem mais dura. Segundo Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do King’s Brazil Institute e professora associada de Estudos Brasileiros e Latino-Americanos no King’s College London, em entrevista à France 24, a performance macroeconômica (os grandes indicadores da economia, como crescimento do PIB — a soma de tudo que o país produz — e inflação) e a confiança política estão se movendo em trilhos diferentes.
Para entender o fenômeno, imagine que o termômetro oficial diz que está calor, mas você continua sentindo frio. Os dados agregados — aqueles que medem a economia como um todo — podem mostrar crescimento, mas não capturam o que acontece no dia a dia das famílias: o preço do supermercado que não para de subir, a conta de luz mais cara, a dificuldade de conseguir um emprego estável. É como se houvesse duas economias: a dos relatórios oficiais e a da mesa de jantar.
Aruska destaca que o custo de vida elevado e a volatilidade do mercado de trabalho (ou seja, a instabilidade — quando não se sabe se o emprego vai durar ou se haverá renda no mês seguinte) moldam a percepção dos eleitores de forma muito mais intensa do que os números do governo. Esse descompasso entre indicadores e realidade vivida não é exclusividade brasileira: nos Estados Unidos, por exemplo, a economia cresceu consistentemente em 2023 e 2024, mas pesquisas mostravam que a maioria dos americanos considerava a situação econômica ruim, principalmente por causa da inflação acumulada nos anos anteriores.
A análise foi feita no contexto das eleições que se aproximam no Brasil, com Lula permanecendo como candidato forte apesar dos desafios típicos de quem está no poder. A polarização política brasileira — quando a sociedade se divide em grupos opostos que não dialogam — amplifica ainda mais essa desconexão entre dados e percepção. Quando as pessoas já têm uma opinião formada sobre o governo, tendem a interpretar os mesmos números de formas completamente diferentes.
📊 Número do Dia
Duas economias , A distância entre os indicadores oficiais e a realidade sentida pelos brasileiros no custo de vida e no mercado de trabalho
Por que isso importa
Para o cidadão, essa análise ajuda a entender por que a sensação de dificuldade persiste mesmo quando o governo apresenta números positivos — o que você sente no supermercado e na busca por emprego é tão real quanto as estatísticas oficiais. Para investidores e empresas, o alerta é claro: decisões eleitorais são tomadas com base na economia vivida, não apenas na medida, o que pode gerar volatilidade política mesmo em cenários de crescimento técnico. A confiança do consumidor, afinal, move mercados tanto quanto o PIB.
Fonte original: https://www.france24.com/en/tv-shows/spotlight/20260907-polarised-brazil-lula-remains-a-strong-candidate-despite-the-challenges-of-incumbency


