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quinta-feira, 10 de setembro de 2026 Brasil

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Brasil tem 2 milhões de trabalhadores em aplicativos

Cerca de 2 milhões de brasileiros trabalharam por meio de aplicativos como Uber, 99 e iFood em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgada pelo IBGE nesta sexta-feira (4).

Brasil tem 2 milhões de trabalhadores em apps. Eles trabalham mais horas, ganham menos por hora e enfrentam informalidade de 72%, segundo o IBGE.

O Brasil tem hoje 2 milhões de trabalhadores que dependem de aplicativos digitais para ganhar a vida — são motoristas de Uber, entregadores de iFood e prestadores de serviços que usam plataformas para encontrar clientes. Segundo a Pnad Contínua divulgada pelo IBGE, esses “plataformizados” (termo usado pelo instituto para classificar quem trabalha por apps) representam 1,9% de todos os ocupados no país. A maioria esmagadora (86,8%) trabalha por conta própria, sem carteira assinada ou vínculo formal com as empresas.

Os números revelam uma realidade paradoxal. Embora ganhem em média o mesmo que trabalhadores de outras áreas do setor privado (R$ 3.147 por mês), os plataformizados trabalham 5,4 horas a mais por semana — 44,7 horas contra 39,3 horas dos demais. É como se, para chegar ao mesmo salário, precisassem esticar a jornada em mais de um dia útil por mês. O resultado: recebem R$ 16,20 por hora trabalhada, 12% menos que os R$ 18,40/hora dos não plataformizados.

Informalidade e desproteção social

A informalidade atinge 72,1% dos trabalhadores de aplicativo, contra 42,7% no restante da economia. Informalidade, aqui, significa trabalhar sem as proteções básicas: sem férias remuneradas, sem 13º salário, sem aviso prévio. Apenas 34% dos plataformizados contribuem para a previdência (o que garante aposentadoria e auxílio-doença), enquanto entre os demais trabalhadores esse índice chega a 63%. Para efeito de comparação, na França, onde o debate sobre direitos de trabalhadores de plataforma é intenso, cerca de 80% da força de trabalho tem cobertura previdenciária.

O perfil desses trabalhadores é marcante: 84,4% são homens, e 47% têm entre 25 e 39 anos. Entre motoristas de app (exceto táxi) e entregadores, o motivo principal para entrar nesse mercado foi a falta de alternativa — não conseguiram encontrar outro trabalho. Flexibilidade de horário e rendimento maior que outras opções disponíveis aparecem como motivações secundárias, segundo o IBGE.

Conta própria, mas dependente

Embora trabalhem formalmente por conta própria, esses profissionais vivem uma situação peculiar. Entre motoristas de apps de transporte, 80,2% afirmam que o valor recebido por cada corrida depende totalmente da plataforma; entre entregadores, 78,3% dizem o mesmo. O analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes resume: “Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ele, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa que controla a plataforma digital.”

O setor cresceu 36,8% em três anos. Em 2022, eram 1,3 milhão de pessoas com os apps como ocupação principal; em 2025, esse número chegou a 1,8 milhão. Os entregadores foram os que mais cresceram no último ano: alta de 18,6%. O transporte de passageiros concentra a maior fatia: 58,9% dos plataformizados são motoristas de Uber, 99 ou táxi por aplicativo.

O debate no Supremo

A divulgação dos dados ocorre uma semana após o Supremo Tribunal Federal (STF) adiar o julgamento sobre a “uberização” — o debate sobre reconhecer ou não vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas. Representantes das categorias argumentam que a falta de vínculo precariza o trabalho; as empresas discordam. A Procuradoria-Geral da República já se posicionou contra o reconhecimento do vínculo.

📊 Número do Dia

R$ 16,20 — Rendimento médio por hora dos trabalhadores de aplicativo — 12% menor que o dos demais trabalhadores do setor privado

Por que isso importa

Para o cidadão, os dados expõem a face oculta da “economia de bicos”: jornadas mais longas, remuneração menor por hora e desproteção social recorde. Para empresas e investidores, o crescimento de 36,8% em três anos mostra a consolidação do modelo de plataformas, mas também sinaliza pressão regulatória crescente. O julgamento no STF pode redefinir custos trabalhistas e a viabilidade do modelo de negócios. Para o trabalhador, a questão é urgente: sem vínculo formal, 72% vivem na informalidade, sem rede de proteção para doença, velhice ou desemprego.


Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/brasil-tem-2-milhoes-de-pessoas-que-trabalham-por-meio-de-aplicativos