As cidades fluminenses que mais recebem royalties de petróleo estão entre as que mais expandiram sua área urbana nos últimos anos. Segundo o mapeamento “Áreas Urbanizadas do Brasil” do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que analisa imagens de satélite, Campos dos Goytacazes lidera o ranking estadual com 8,11 km² de novas áreas urbanizadas entre 2019 e 2022 — o equivalente a três bairros cariocas somados (Copacabana, Ipanema e Humaitá). Em seguida vêm Maricá, com 4,04 km², e Nova Friburgo, com 3,61 km². Macaé aparece em quarto lugar, com 3,33 km² de expansão.
Os royalties são uma espécie de “aluguel” que empresas de petróleo pagam aos governos pela exploração do recurso natural. No caso do Rio de Janeiro, municípios como Campos, Maricá e Macaé recebem bilhões de reais anualmente dessas receitas, o que atrai investimentos, empresas e novos moradores. Só entre janeiro e julho de 2025, Maricá arrecadou R$ 1,9 bilhão em royalties, 22% a mais que no mesmo período do ano anterior.
O paradoxo do crescimento
Apesar da fartura de recursos, a expansão acelerada tem gerado problemas sérios de infraestrutura e ocupação desordenada. Em Macaé, a comunidade Fronteira — antiga vila de pescadores — está sendo literalmente engolida pelo mar. As ressacas cada vez mais frequentes destruíram casas e expulsaram a maioria dos moradores. “Minha casa pode cair, mas eu posso fazer o quê? Tenho que ficar em algum lugar”, relata Marcos Nei Porto de Oliveira, 58 anos, desempregado da indústria de petróleo.
No mesmo município, o bairro Ajuda de Baixo cresce rapidamente desde 2020, após a construção de conjuntos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida. Mas a região ainda carece de saneamento básico, iluminação pública adequada e sofre com alagamentos constantes. “Sempre que chove, aqui alaga”, conta o assistente de manutenção Josivan Batista dos Santos, morador há dois anos.
Comparação internacional
O fenômeno brasileiro contrasta com experiências internacionais bem-sucedidas de gestão de recursos naturais. Na Noruega, país que também enriqueceu com petróleo, as receitas foram direcionadas para um fundo soberano que hoje vale mais de US$ 1,6 trilhão, garantindo planejamento urbano rigoroso e investimentos de longo prazo. No Brasil, a ausência de planejamento adequado faz com que cidades ricas em royalties cresçam de forma desordenada, sem a infraestrutura necessária para acompanhar a expansão populacional.
Em três anos, o estado do Rio ganhou 89,25 km² de “feições urbanizadas” (áreas urbanizadas, vazios intraurbanos e equipamentos urbanos) — mais do que o território inteiro de Belford Roxo (78,98 km²). Esse crescimento horizontal, que significa a expansão da cidade para os lados em vez de para cima, aumenta os custos de manutenção urbana: mais ruas para asfaltar, mais tubulações de água e esgoto, mais iluminação pública.
Riscos climáticos ignorados
Especialistas alertam que a expansão urbana está ocorrendo sem considerar os riscos das mudanças climáticas. Juciano Rodrigues, coordenador do Observatório das Metrópoles da UFRJ, destaca que “o tempo do planejamento urbano não está adaptado ao tempo das mudanças climáticas”. Cidades serranas como Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis — que também aparecem no ranking de expansão — são especialmente vulneráveis, com construções irregulares subindo morros e ocupando margens de rios.
O economista Mauro Osório, doutor em Planejamento Urbano, defende cidades mais compactas: “Sempre que a cidade se expande, aumenta o custo de manutenção dela. É mais rua que você precisa asfaltar, é mais estrutura para levar para um território maior.” A lógica é simples: imagine que manter uma cidade é como cuidar de uma casa — quanto maior ela fica, mais você gasta com limpeza, manutenção e contas.
Atrativos que impulsionam o crescimento
Em Maricá, políticas públicas inovadoras atraem novos moradores: transporte público totalmente gratuito (ônibus, vans e bicicletas), programa de renda básica com moeda social própria (Mumbuca) e bolsas universitárias integrais. A cidade foi a que mais cresceu em população no estado, o que explica a demanda por novas áreas residenciais.
Em Campos, antigas fazendas de usinas de açúcar viraram empreendimentos imobiliários modernos. O autônomo David Azevedo, 41 anos, trocou um apartamento pequeno por uma casa de 170 m² no novo condomínio Cidade Jardim, erguido onde funcionava a Fazenda Santo Antônio. “Já tem quatro condomínios e cerca de três mil casas. É um bairro projetado, totalmente estruturado”, conta. As casas custam entre R$ 350 mil e R$ 1,5 milhão.
📊 Número do Dia
8,11 km² , Área de expansão urbana em Campos dos Goytacazes entre 2019 e 2022, equivalente a três bairros cariocas (Copacabana, Ipanema e Humaitá)
Por que isso importa
Para o cidadão, a expansão desordenada significa risco de morar em áreas sem infraestrutura adequada ou vulneráveis a desastres ambientais, como alagamentos e deslizamentos. Para o investidor, cidades com royalties abundantes oferecem oportunidades no mercado imobiliário, mas exigem atenção aos riscos de planejamento urbano deficiente. Para empresas, o crescimento populacional nessas regiões representa mercado consumidor em expansão, mas também custos crescentes de infraestrutura que podem pressionar as contas públicas no longo prazo.


