Flávio Bolsonaro intensificou sua aproximação com o mercado financeiro ao reunir executivos de bancos como Bradesco, Itaú e Santander, além de empresários como Richard Gerdau, em um jantar na casa do ex-presidente do Credit Suisse Brasil, Marcelo Kayath. O encontro teve como objetivo reduzir a desconfiança da Faria Lima (região financeira de São Paulo onde se concentram bancos e fundos de investimento) em relação à sua candidatura, segundo reportagem do jornal O Globo.
Durante o jantar, a assessora econômica Daniella Marques detalhou as propostas da campanha. Flávio prometeu cortar gastos públicos equivalentes a 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma de tudo que o país produz em um ano) — o que representaria cerca de R$ 180 bilhões em valores atuais. Para contextualizar: esse montante equivale a quase todo o orçamento anual do Ministério da Saúde. O candidato também defendeu a revisão do arcabouço fiscal (as regras que limitam o crescimento dos gastos do governo) e a criação de mecanismos de governança para decisões que impactem as despesas públicas.
O senador prometeu blindar a equipe econômica de indicações partidárias, mas admitiu que outros ministérios terão perfil político para facilitar a negociação com o Congresso. É como separar a cozinha da sala de jantar: a economia ficaria protegida das barganhas políticas, enquanto outras áreas seriam usadas para construir alianças. Entre as pastas que Flávio disse querer preservar está o Ministério de Minas e Energia, responsável por decisões sobre petróleo, energia elétrica e combustíveis — áreas sensíveis para o setor produtivo.
Comparação internacional e desafios fiscais
A promessa de cortar 1,5% do PIB em gastos pode ser comparada aos ajustes fiscais realizados por países europeus após a crise de 2008. A Espanha, por exemplo, cortou cerca de 2% do PIB entre 2010 e 2012, mas enfrentou recessão e desemprego acima de 20% no processo. A diferença é que o Brasil parte de uma situação fiscal mais delicada: a dívida pública brasileira está em torno de 75% do PIB, enquanto a espanhola estava em 60% antes dos cortes, segundo dados públicos do Banco Central e do Eurostat.
Apesar das promessas, empresários presentes relataram ao O Globo que saíram do encontro sem enxergar um programa suficientemente robusto. Nenhum dos convidados declarou voto explícito em Flávio ou fez manifestação pública de apoio durante o jantar. A avaliação foi de que faltaram detalhes sobre de onde viriam os cortes prometidos — é como prometer emagrecer sem dizer se vai cortar o açúcar, o pão ou as duas coisas.
Pacificação institucional e segurança pública
Questionado sobre a relação com o Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio evitou defender o impeachment de ministros da Corte, bandeira recorrente do bolsonarismo. Diante dos empresários, afirmou que as crises institucionais precisam ser resolvidas pela política, defendendo um esforço para “virar a página” sem revanchismo. A postura contrasta com manifestações anteriores do próprio senador e de aliados, que já defenderam medidas contra integrantes do STF.
Empresários também aproveitaram para expor preocupações sobre segurança pública. Segundo o relato de um participante ao O Globo, funcionários de empresas da Faria Lima relatam que saem de casa com dois celulares — um no bolso para entregar em caso de assalto e outro escondido para uso real. A menção à insegurança na própria região financeira de São Paulo ilustra como o tema transbordou da periferia para áreas nobres da cidade.
📊 Número do Dia
1,5% do PIB , Corte de gastos prometido por Flávio Bolsonaro, equivalente a cerca de R$ 180 bilhões — quase todo o orçamento anual do Ministério da Saúde
Por que isso importa
A aproximação de Flávio com o mercado financeiro sinaliza uma tentativa de equilibrar o discurso bolsonarista com previsibilidade econômica. Para investidores, a promessa de blindar a equipe econômica e cortar gastos pode reduzir o risco fiscal, mas a falta de detalhes mantém a incerteza. Para empresas, a pacificação institucional prometida reduziria a volatilidade política que afeta decisões de longo prazo. Para o cidadão, cortes de 1,5% do PIB podem significar redução de programas sociais ou investimentos públicos, dependendo de onde vierem os ajustes — informação que ainda não foi detalhada pela campanha.


