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quinta-feira, 10 de setembro de 2026 Brasil

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Crime organizado infiltra cadeia de combustíveis no Brasil

O crime organizado avançou sobre praticamente todos os elos da cadeia de combustíveis no Brasil, desde a produção até os postos de abastecimento. Especialistas reunidos em seminário em Brasília defendem maior integração entre órgãos públicos e iniciativa privada para enfrentar o problema.

Crime organizado infiltra cadeia de combustíveis no Brasil, com fraudes que vão da adulteração à lavagem de dinheiro. Setor movimenta R$ 1 trilhão ao ano.

A infiltração de organizações criminosas no mercado de combustíveis brasileiro atingiu dimensões alarmantes, com atuação que vai da adulteração de produtos à lavagem de dinheiro. Segundo Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), “o crime organizado está do poço ao posto”, referindo-se à presença dessas estruturas em toda a cadeia produtiva. O setor movimenta cerca de R$ 1 trilhão por ano e gera aproximadamente R$ 240 bilhões em arrecadação tributária — valores que explicam sua atratividade para grupos criminosos.

As fraudes identificadas incluem desde a instalação de chips em bombas de combustível até a mistura irregular de etanol à gasolina, que pode chegar a proporções de 70% a 80%. Na prática, é como se o consumidor pagasse por gasolina mas levasse para casa um produto que é majoritariamente etanol — uma fraude que passa despercebida em veículos flex, mas prejudica o desempenho do motor e o bolso do cidadão. Operações recentes de combate a ilícitos contribuíram para deslocar cerca de 10 bilhões de litros de combustíveis irregulares para o mercado legal, segundo estimativas do ICL.

Economia digital facilita lavagem de dinheiro

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, alertou que a economia digital criou novos desafios para a fiscalização. “Estamos no momento da economia digital, de transações instantâneas, de NFTs (certificados digitais de propriedade), de modalidades que até pouquíssimo tempo não faziam parte da nossa rotina fiscalizatória”, afirmou. A PF ampliou a integração com forças estaduais e hoje mantém mecanismos conjuntos de combate ao crime organizado nas 27 unidades da Federação.

No ano passado, operações policiais resultaram na apreensão efetiva de cerca de R$ 12 bilhões em dinheiro e bens, incluindo aeronaves e imóveis. Para Rodrigues, o enfrentamento ao crime organizado passa necessariamente pela retirada de seu poder econômico — “temos que enfrentar o poder econômico e retirar dinheiro do crime organizado”, disse. Ele defendeu ainda maior rastreabilidade dos produtos e compartilhamento de informações entre órgãos investigativos e reguladores.

Comparação internacional

O problema brasileiro tem paralelos em outros países emergentes. A título de comparação, o México enfrenta desafio semelhante com o roubo de combustível (conhecido como “huachicoleo”), que custou ao país cerca de US$ 3 bilhões anuais em anos recentes, segundo dados da Pemex, a estatal de petróleo mexicana. A diferença é que no Brasil a infiltração criminosa ocorre de forma mais sofisticada, através de empresas formalmente constituídas e mecanismos de fraude fiscal, enquanto no México predomina o roubo direto de oleodutos.

Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, classificou o momento atual como de “convergência criminal”, em que organizações combinam controle territorial, atuação em mercados ilegais e presença crescente em atividades econômicas formais. “É um exemplo nítido de como a economia formal pode ser capturada para retroalimentar o poder do que tenho chamado de holdings criminais”, afirmou. Para ele, medidas administrativas e de fiscalização podem ter impacto mais significativo que apenas o endurecimento penal.

📊 Número do Dia

R$ 1 trilhão , Volume anual movimentado pela cadeia de combustíveis no Brasil, tornando o setor atrativo para organizações criminosas

Por que isso importa

Para o cidadão, a adulteração de combustíveis significa pagar mais caro por um produto de qualidade inferior, que prejudica o desempenho do veículo e aumenta gastos com manutenção. Para o Estado, representa perda de bilhões em arrecadação tributária que poderiam financiar serviços públicos. Para empresas legais, a concorrência desleal de quem frauda impostos e adultera produtos torna o mercado insustentável. O avanço do crime organizado sobre setores formais da economia ameaça a própria capacidade do Estado de regular mercados e proteger consumidores.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/mercado-ilegal/noticia/2026/08/27/mercado-ilegal-crime-organizado-avanca-sobre-cadeia-de-combustiveis-e-exige-acao-integrada-dizem-especialistas.ghtml