A Oncoclínicas formalizou nesta terça-feira (14) o pedido de recuperação extrajudicial para renegociar um passivo de R$ 5,1 bilhões. Segundo fato relevante enviado ao mercado, a maior rede de tratamento de câncer do país já obteve adesão de 37% dos credores ao plano. A empresa tem 90 dias para alcançar o percentual mínimo necessário à homologação, que vinculará todos os credores aos novos termos de pagamento.
A recuperação extrajudicial é um mecanismo que permite à empresa renegociar suas dívidas fora do tribunal, desde que obtenha concordância de credores que representem ao menos 60% do valor total devido. É como se a Oncoclínicas pedisse aos bancos e investidores para renegociar o parcelamento de um cartão de crédito muito alto, antes que a situação se torne insustentável. O processo não abrange obrigações operacionais, como pagamentos a fornecedores de medicamentos e equipamentos.
O tamanho do problema
Os números revelam a gravidade da situação. A alavancagem da empresa — indicador que mostra quantas vezes a dívida supera o lucro operacional — chegou a 4,3 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), quando o limite contratual com credores era de 3,5 vezes. Para contextualizar, empresas saudáveis costumam manter esse indicador abaixo de 3 vezes. Em 2024, a Oncoclínicas registrou prejuízo de R$ 3,67 bilhões.
A reestruturação poderá envolver injeção de recursos pelos acionistas, conversão de dívidas em ações, renegociação de empréstimos e ampliação de prazos. Como parte do ajuste, a empresa rescindiu contratos de expansão, incluindo uma clínica em São Paulo (multa de R$ 76 milhões) e um hospital em Goiânia. A estratégia é reduzir compromissos futuros para concentrar recursos no pagamento das dívidas atuais.
Comparação internacional
A situação da Oncoclínicas contrasta com o setor de saúde privada em mercados desenvolvidos. Nos Estados Unidos, grandes redes oncológicas como a US Oncology mantêm alavancagem média de 2,5 vezes o Ebitda, segundo dados do setor. A diferença reflete tanto o custo de capital mais elevado no Brasil — onde os juros são historicamente altos — quanto a expansão acelerada da rede brasileira nos últimos anos, financiada majoritariamente por dívida.
O impacto nos pacientes
A crise financeira já afetou diretamente os pacientes. Sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia foram suspensas por falta de medicamentos em unidades conveniadas a planos de saúde. A empresa realizou mutirão para regularizar os atendimentos, mas o episódio expôs a fragilidade operacional causada pelo aperto financeiro. Segundo a companhia, as operações seguem normais e a recuperação não impactará o atendimento.
Paralelamente, acionistas minoritários pressionam por uma oferta pública de aquisição (OPA) de R$ 6 bilhões. O pedido visa obrigar a gestora americana Centaurus a pagar R$ 16 por ação — valor 20 vezes superior à cotação atual de R$ 0,77 na Bolsa. A Comissão de Valores Mobiliários ainda não decidiu sobre o caso.
📊 Número do Dia
4,3x , Alavancagem da Oncoclínicas em relação ao Ebitda, acima do limite de 3,5x previsto em contrato com credores
Por que isso importa
Para pacientes oncológicos, a recuperação extrajudicial representa risco de interrupção de tratamentos caso a reestruturação falhe. Para investidores, o caso ilustra os perigos da expansão acelerada financiada por dívida em ambiente de juros altos. Para o setor de saúde, sinaliza que o modelo de crescimento agressivo via aquisições — comum nos últimos anos — pode não ser sustentável sem geração de caixa compatível. A cotação de R$ 0,77 por ação, contra R$ 16 reivindicados por minoritários, mostra a destruição de valor para quem apostou na empresa.


