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Inflação brasileira reflete economia aquecida, não guerra comercial

Economista Gabriel Srour alerta que alta do IPCA-15 reflete economia aquecida, não guerra comercial, e BC precisa mirar centro da meta de 3% ao ano.
A alta recente da inflação no Brasil tem pouco a ver com a guerra comercial global e muito com o aquecimento da economia doméstica, segundo análise do economista Gabriel Srour divulgada nesta quarta-feira (28).

A inflação brasileira medida pelo IPCA-15 (uma prévia do índice oficial que mede a variação de preços) subiu mais do que o esperado, mas a causa principal não está nas tensões comerciais internacionais. Segundo Gabriel Srour, colunista da CNN Brasil, o movimento reflete a resiliência da economia brasileira — ou seja, a capacidade do país de manter o ritmo de atividade mesmo diante de incertezas externas.

Para Srour, o principal risco agora é o Banco Central (BC) não perseguir o centro da meta de inflação, que no Brasil é de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa que a inflação pode variar entre 1,5% e 4,5% sem que o BC seja formalmente cobrado, mas a autoridade monetária deve sempre mirar o meio do alvo. Quando o BC aceita inflação persistentemente acima de 3%, perde credibilidade — e isso torna mais caro controlar os preços no futuro, exigindo juros ainda mais altos.

A avaliação contrasta com a narrativa de que a inflação global estaria sendo impulsionada principalmente pela guerra comercial entre Estados Unidos e China. No caso brasileiro, o que está pressionando os preços é a demanda interna aquecida, com consumo e investimentos em alta. É como se a economia estivesse acelerando demais: quando há mais gente querendo comprar do que produtos disponíveis, os preços sobem.

A título de comparação, nos Estados Unidos a inflação recente também tem componente doméstico forte, mas lá o Federal Reserve (o banco central americano) já sinalizou disposição para manter juros elevados por mais tempo. No Brasil, a dúvida do mercado é se o BC terá a mesma firmeza, especialmente em ano eleitoral.

Contexto internacional

Enquanto países emergentes como Índia e Indonésia enfrentam inflação importada (causada por produtos mais caros vindos de fora), o Brasil vive um cenário diferente. Aqui, a pressão vem de dentro: salários em alta, crédito mais farto e consumo robusto. Isso exige uma resposta de política monetária — ou seja, o BC precisa usar a taxa Selic (o juro básico da economia) para esfriar a demanda e trazer a inflação de volta ao centro da meta.

📊 Número do Dia

3% , Centro da meta de inflação que o Banco Central deve perseguir, segundo Srour

Por que isso importa

Para o cidadão, inflação acima da meta significa perda de poder de compra: o salário rende menos no supermercado e na farmácia. Para o investidor, a sinalização de que o BC pode não ser firme aumenta a incerteza e pressiona os juros futuros, encarecendo financiamentos. Para as empresas, juros mais altos por mais tempo encarecem o crédito e reduzem a margem de lucro. A questão central é se o BC terá autonomia para agir com rigor técnico, independentemente do calendário político.


Fonte original: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/srour-inflacao-tem-pouco-de-guerra-e-risco-e-bc-nao-seguir-centro-da-meta/

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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