O Rio Grande do Sul está em uma corrida contra o relógio para evitar que a tragédia de 2024 se repita. Após as enchentes que devastaram quase 500 municípios há dois anos, o estado investe em radares meteorológicos, estações de monitoramento e reflorestamento. A urgência aumenta com a previsão de chegada do El Niño — fenômeno climático que aquece as águas do Pacífico e intensifica as chuvas no Sul do Brasil — a partir do segundo semestre deste ano.
Segundo a Defesa Civil gaúcha, o estado já instalou um radar meteorológico em Porto Alegre em 2024, capaz de detectar chuvas em um raio de 150 quilômetros. Em janeiro de 2026, o governo adquiriu outros três radares, que serão instalados em diferentes regiões até o fim do ano. Além disso, foram contratadas 130 novas estações de monitoramento para cobrir 25 bacias hidrográficas, fornecendo dados em tempo real sobre o comportamento dos rios em áreas de risco.
Outro avanço importante: todos os 497 municípios gaúchos agora possuem Planos de Contingência (documentos que definem ações de resposta a desastres). Em 2023, 88% das cidades não tinham esse planejamento básico. É como se, antes, quase nenhuma cidade tivesse um plano de evacuação em caso de incêndio — agora, todas têm.
O papel das árvores na contenção das águas
Parte da solução passa pelo reflorestamento. O programa Reflora, lançado em 2025 com investimento de R$ 5,2 milhões, prevê o plantio de seis mil mudas de 34 espécies nativas da Mata Atlântica. As árvores funcionam como esponjas naturais: suas raízes absorvem parte da água da chuva, reduzindo o volume que escoa rapidamente e causa enchentes. O projeto usa uma técnica biotecnológica da Universidade Federal de Viçosa que acelera o crescimento das mudas — árvores que levariam 20 anos para amadurecer podem atingir esse estágio em oito anos.
Mas a escala do problema é muito maior. Segundo estudo do Instituto Escolhas, o Rio Grande do Sul precisa reflorestar 1,16 milhão de hectares — área equivalente a quase metade do estado de Sergipe. O déficit maior está nos Pampas (751,3 mil hectares) e na Mata Atlântica (414 mil hectares). Para atingir essa meta, seriam necessários R$ 19,7 bilhões e o plantio de até um bilhão de mudas, segundo a ONG. O Reflora, com suas seis mil mudas, representa apenas 0,0006% dessa necessidade.
“O estado destruiu toda a sua infraestrutura natural para lidar com enchentes”, explica Sérgio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas, ao jornal O Globo. Ele destaca que, em muitas propriedades atingidas pelas enchentes de 2024, não foi apenas a lavoura que se perdeu — o próprio solo foi arrancado, deixando áreas sem condições de cultivo.
El Niño aumenta o risco
A preocupação com o El Niño tem fundamento científico. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Sul do Brasil é a região mais vulnerável ao fenômeno. “As frentes frias tendem a ficar estacionárias durante mais tempo, produzindo mais precipitação”, explica Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden.
A título de comparação, países como a Holanda — que fica abaixo do nível do mar — investem cerca de 1% do PIB anualmente em infraestrutura de contenção de enchentes. No Brasil, historicamente, esse tipo de investimento preventivo é negligenciado até que tragédias forcem a ação emergencial.
📊 Número do Dia
1,16 milhão de hectares , Área que precisa ser reflorestada no Rio Grande do Sul para recuperar a capacidade natural de absorção de chuvas, segundo o Instituto Escolhas
Por que isso importa
Para o cidadão gaúcho, essas medidas podem significar a diferença entre segurança e nova tragédia quando o El Niño chegar. Para empresas do agronegócio e da construção civil, o reflorestamento abre oportunidades de negócio, mas também exige adaptação a novas regras ambientais. Para investidores, o estado sinaliza maior previsibilidade e redução de riscos climáticos — fatores que afetam desde o preço de seguros até a viabilidade de projetos de infraestrutura de longo prazo.


