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Brasil lidera escassez de talentos com 80% das empresas

Descompasso entre avanços tecnológicos e qualificação profissional coloca país acima da média mundial em dificuldades de contratação
Profissional de RH entrevistando candidato com documento de vagas abertas sobre mesa, mercado de trabalho
Oito em cada dez empresas brasileiras enfrentam dificuldade para preencher vagas, segundo pesquisa do ManpowerGroup que ouviu mais de 39 mil empregadores em 41 países. O índice brasileiro de 80% supera a média global de 72% e permanece estável há quatro anos.

A escassez de profissionais qualificados deixou de ser um problema passageiro e virou uma característica permanente do mercado de trabalho brasileiro. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos do ManpowerGroup divulgada em abril de 2026, 80% das empresas no Brasil relatam dificuldade para encontrar trabalhadores com as competências necessárias — percentual que se mantém praticamente inalterado nos últimos quatro anos e supera em oito pontos a média global de 72%.

O fenômeno ganhou nova dimensão com o avanço da inteligência artificial. Pela primeira vez desde o início da série histórica, habilidades ligadas à IA passaram a liderar o ranking das competências mais difíceis de encontrar no mundo. Desenvolvimento de modelos e aplicações de inteligência artificial (20%) e letramento em IA — ou seja, a capacidade de entender e usar essas ferramentas no dia a dia (19%) — superaram áreas tradicionais como engenharia (19%) e vendas e marketing (18%).

O que mudou no mercado de trabalho

Para entender a dimensão do problema, imagine que o mercado de trabalho funciona como um jogo de encaixe: de um lado, empresas buscam peças com formatos específicos; de outro, profissionais oferecem suas competências. O que a pesquisa mostra é que as peças estão mudando de formato mais rápido do que as pessoas conseguem se adaptar. “A escassez de talentos reflete um descompasso entre a velocidade das mudanças tecnológicas e a formação de profissionais com essas habilidades”, explica Nilson Pereira, CEO do ManpowerGroup Brasil.

O Brasil está entre os países mais afetados. Enquanto a China registra 48% de empresas com dificuldade para contratar e os Estados Unidos marcam 69%, o índice brasileiro de 80% só perde para economias europeias como Alemanha (83%) e França (74%). A título de comparação, o problema brasileiro é mais grave que o americano em 11 pontos percentuais — uma diferença significativa que indica maior descompasso entre oferta e demanda de qualificação no país.

Quais setores sofrem mais

A escassez não poupa nenhum setor da economia. No Brasil, serviços profissionais, científicos e técnicos lideram com 85% de dificuldade para contratar, seguidos pelo setor de informação (83%). Mesmo áreas tradicionais como comércio, logística e manufatura registram índices próximos de 79%, demonstrando que o problema é generalizado.

O tamanho da empresa também influencia. Globalmente, organizações pequenas (até dez funcionários) registram 64% de dificuldade para contratar, enquanto empresas maiores (mil a cinco mil colaboradores) chegam a 75%. No Brasil, esse padrão se intensifica: até 90% das empresas de grande porte relatam dificuldades para encontrar profissionais qualificados.

Habilidades humanas ainda importam

Apesar do protagonismo da tecnologia, competências comportamentais continuam no topo da lista de prioridades. Comunicação, colaboração e trabalho em equipe aparecem como as habilidades mais buscadas globalmente (39% dos empregadores), seguidas por profissionalismo e ética de trabalho (36%) e adaptabilidade (34%). O recado é claro: dominar inteligência artificial não basta se o profissional não souber trabalhar em equipe ou aprender continuamente.

Como as empresas estão reagindo

Diante da dificuldade de encontrar talentos prontos no mercado, empresas brasileiras estão investindo pesado em formação interna. Cerca de 44% das organizações no Brasil apontam programas de requalificação e aprimoramento de habilidades como principal estratégia — percentual bem superior aos 27% registrados globalmente. Outras medidas incluem flexibilidade de jornada (20%), trabalho remoto (18%) e aumento de salários (19%).

A mudança de abordagem reflete uma realidade: esperar que o mercado forneça profissionais prontos não é mais viável. “As empresas que avançarem na formação contínua de suas equipes e na criação de ambientes de aprendizagem terão maior capacidade de adaptação”, afirma Pereira.

📊 Número do Dia

80% , das empresas brasileiras enfrentam dificuldade para preencher vagas — índice acima da média global de 72% e estável há quatro anos

Por que isso importa

Para o trabalhador, a escassez de talentos representa oportunidade: profissionais com habilidades em inteligência artificial e disposição para aprender continuamente ganham poder de barganha por melhores salários e condições. Para as empresas, o cenário exige repensar estratégias de contratação e investir mais em formação interna, sob risco de perder competitividade. Para a economia brasileira como um todo, o descompasso entre demanda e oferta de qualificação pode frear o crescimento e a produtividade — especialmente num momento em que a transformação digital acelera globalmente.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2026/04/13/escassez-de-talentos-mantem-pressao-no-mercado-de-trabalho-1.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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